24 de dezembro de 2010

O Sentido do Natal

O Natal é antes de tudo uma festa de nascimento, nela celebramos o nascimento de Jesus Cristo há mais de dois mil anos, mais provavelmente entre os anos 4-6 a.C., em circunstâncias adversas na Palestina. Os estudiosos do mundo da Bíblia não estão de acordo se Jesus nasceu realmente em Belém de Judá, como confirmação de uma profecia (como queriam os evangelistas), ou em Nazaré da Galiléia, de onde recebeu o sobrenome, Jesus de Nazaré.
Infelizmente, a festa de Natal é obscurecida por chamadas apelativas de consumo e acaba na maioria das vezes ganhando contornos pagãos, com arvores de Natal (uma tradição dos países europeus onde há muitos pinheiros), com a lendária figura do Papai Noel (ligado a figura de São Nicolau, o taumaturgo, bispo de Mira, Turquia, séc.IV, daí em inglês ele ser chamado Santa Claus ou Nicolaus), que foi popularizada pela Coca Cola em 1931 com sua a clássica imagem (gorro e roupa de inverno em vermelho e branco, com cinto preto), podemos acrescentar outras tradições que destacam sua relação com a festa do deus sol pagão (relacionado muitas vezes com Mitra), o Natalis Solis Invictus, que celebrava o solstício de inverno (norte), o dia mais longo do ano no hemisfério ocidental, o que leva muitas igrejas protestantes a rejeitarem a data, mas devemos destacar que o cristianismo primevo utilizou a data substituindo-a pela celebração do verdadeiro ‘sol da justiça’, Jesus Cristo, num claro sincretismo ou paralelismo entre o mito de Mitra e a tradição do nascimento de Jesus nos evangelhos.
Mas o que há de tão fascinante e misterioso na festa do Natal?
A festa de Natal é o ápice de um período importante da liturgia cristã, o chamado Advento. O advento (do latim adventus, ‘o que há de vir’) tem inicio na festa de Cristo Rei do Universo e termina na festa de Reis, dia 06 de janeiro. Devido à festa de fim de ano, as pessoas acabam encerrando a celebração do Natal no dia 25 de dezembro, como se o Natal fosse apenas um dia, quando na verdade é o clímax de toda uma espera e de um período, da mesma forma que o período pascal não termina com a festa da Páscoa e da ressurreição, mas continua até Pentecostes. No advento se usa o roxo na liturgia como a cor principal, denotando meditação, penitencia e espera da vinda de Jesus, tanto como recordação da sua encarnação (primeira vinda) como preparação da sua vinda gloriosa (juízo final). Vale ressaltar que, o presépio, a verdadeira representação e imagem do Natal cristão, foi instituído por São Francisco de Assis, séc. XII, com a intenção de plasmar uma imagem de acontecimento tão sublime na história humana que é a encarnação do filho de Deus.
Convém lembrar que o Natal não é a celebração mais importante do cristianismo, que na verdade é a celebração da paixão, morte e ressurreição de Jesus (Páscoa), muito embora seja de grande importância para a espiritualidade cristã a celebração do nascimento de Jesus de Nazaré, o que dá pleno sentido ao hino citado por Paulo na carta aos Filipenses (Fil 2, 5-11) que fala da kenosis de Deus, ou seja, o despojamento de Jesus, que sendo de condição divina assume a fragilidade humana, numa união perfeita entre divindade e humanidade, reconciliando assim o infinito com o finito. 

18 de dezembro de 2010

Ele está no meio de nós!

Fim de ano é uma época engraçada,
as pessoas sentem cada vez mais o peso do trabalho,
tudo fica mais rápido, frenético, dinâmico, todos têm uma pressa inexplicável,
as casas são pintadas, as luzes são acesas,
os amigos sentem a necessidade de se rever,
as famílias buscam se aproximar,
os trabalhadores estão ansiosos pelas férias,
os alunos querem passar, os professores querem entrar em recesso,
Enfim, tudo indica que estamos aguardando algo diferente, algo novo, uma mudança.

A vida é assim, regida por ciclos, por etapas,
mesmo que nós não queiramos tudo passa por momentos que vão e vem,
as coisas se repetem, embora não da mesma forma, mas com um jeito de novo.
Mesmo sabendo que nada vai mudar substancialmente, nós acreditamos, esperamos, sentimos que há algo novo no ar, nossa consciência precisa acreditar para suportar a vida, para lhe dar sentido, para irmos adiante.
Em geral, os momentos de crise, de angústia pelo novo, são os mais promissores às mudanças, é através das crises que somos desafiados a inventar saídas, respostas, caminhos, estratégias.
O período de fim de ano é por si só um momento de crise, não como uma crise econômica, um cataclismo, mas é um momento de crise e ansiedade psicológica,
parece com o que denominamos 'apocalipse' (em grego, revelação), ou seja, é um momento de manifestação de anseios, de angústias, de esperanças, de alegrias, etc.

É sobretudo um momento propício para reflexão,
para parar, para pensar,
para parar e pensar,
reavaliar, planejar,
reestruturar, retomar ideais, projetos,
recriar sonhos.

O fim de um ano coincide com o inicio de um outro ano, de um novo período, de uma etapa nova, não que o seja realmente, porque tudo faz parte de uma convenção de nossa sociedade, o calendário, o qual varia de cultura para cultura, com datas, festas, feriados, dias santos, etc, isto não é senão uma criação coletiva tornada norma para todos. E muitas vezes vira uma gaiola onde ficamos presos. Mas há algo mais em tudo isso, sabemos que por trás das convenções existe um quê de diferente no ar, uma sensação de que devemos fazer algo, antes que o tempo se esgote, antes que passe o ano, devemos acelerar nossos projetos, criar saídas para realizá-los. Tudo isso faz parte dessa areia movediça que é o tempo, mas existe algo mais que não foge de nossas mãos assim tão fácil, existe um consolo para a fluidez continua do passar das horas...
Celebramos uma festa a cada ano que se repete, mas que mesmo sendo repetida é sempre novidade, é sempre ansiosamente aguardada...

É o Natal!
Natal, natividade, nascimento, eis o momento mais sublime da história humana!  É Deus que arma sua tenda entre nós (como diz São João)!
É Deus que foge das alturas para estar conosco, para sofrer conosco, para chorar conosco toda nossa miséria desamparada!
É Deus pobre, no meio dos camponeses, dos pastores, dos animais, dos homens!
É Deus fugitivo, perseguido, procurado pelos poderosos para ser morto!
É Deus indefeso, sem armas, frágil!
É Deus menino, infantil, incapaz de lutar, de enfrentar o mal!
Mas é Deus Conosco, Emanuel, que mesmo sendo majestade, todo-poderoso, assume a condição de servo, de humilde, de manso, de fraco, de pobre, de humano...
Enfim, é o único capaz de nos salvar, pois é igual a nós, nos conhece como somos, em nossas fraquezas, pois sofreu nossas desventuras, e assim pode nos perdoar e nos redimir...

Celebremos esta festa que não se acaba, que não se compra, que não se consome, que não está nas tevês nem na mídia, que não precisa de árvore de Natal cheia de luzes artificiais, nem de guloseimas caríssimas, uma festa cuja luz é própria, pois vem do próprio Senhor, cuja árvore é a árvore da vida, cujo alimento se dá na comunhão...
Uma festa tão simples e que está ao nosso alcance na partilha com o irmão, com o pobre, com o que sofre...
Celebremos a noite feliz e eterna da salvação!
Feliz Natal!
Próspero Ano Novo!

9 de dezembro de 2010

Natureza Íntima - Augusto dos Anjos

Ao filósofo Farias Brito

Cansada de observar-se na corrente
Que os acontecimentos refletia,
Reconcentrando-se em si mesma, um dia,
A Natureza olhou-se interiormente!

Baldada introspecção! Noumenalmente
O que Ela, em realidade, ainda sentia
Era a mesma imortal monotonia
De sua face externa indiferente!

E a Natureza disse com desgosto:
"Terei somente, porventura, rosto?!
"Serei apenas mera crusta espessa?!

"Pois é possível que Eu, causa do Mundo,
"Quanto mais em mim mesma me aprofundo,
"Menos interiormente me conheça?!"



Spinoza - Por Machado de Assis

Gosto de ver-te, grave e solitário,
Sob o fumo de esquálida candeia,
Nas mãos a ferramenta de operário,
E na cabeça a coruscante idéia.

E enquanto o pensamento delineia
Uma filosofia, o pão diário
A tua mão a labutar granjeia
E achas na independência o teu salário.

Soem cá fora agitações e lutas,
Sibile o bafo aspérrimo do inverno,
Tu trabalhas, tu pensas, e executas

Sóbrio, tranqüilo, desvelado e terno,
A lei comum, e morres, e transmutas
O suado labor no prêmio eterno.

2 de agosto de 2010

In-ferus


Na ânsia de revelar-se minha alma criou o inferno
Quantas vezes quis que ele existisse...
Quando das minhas entranhas ele surgiu
Tornou-se um não-eu fora de mim
Mas desde sempre reconheço-o em mim
Como a imagem mais perfeita de mim mesmo
Visão de um Tirésias, Reflexo de Narciso, Pintura de D.Gray...

Leonardo Boff - Qual o legado da crise com os pedófilos na Igreja?

O POVO Online - Mundo | Qual o legado da crise com os pedófilos na Igreja?

30 de julho de 2010

O Anjo calou...


  
Certa noite, estava eu apreensivo e durante um sono cataléptico tive um sonho que não me sai da cabeça. Seguia por uma estrada sem rumo em meio a uma floresta negra e densa, um frio de gelar a alma, ouvindo uivos ao longe e sentindo o manto negro da noite cobrir-me completamente. Eis que surgiu um ser negro como uma noite sem estrelas, suas asas brilhavam como se tivessem sido untadas com óleo, era como um Anjo das trevas. Esse Anjo me olhava com um olhar vazio, sem fundo, como um buraco negro que suga toda luz e gravidade, mas que me prendia de forma a não desviar a vista, uma atração que fugia ao controle, um misto de medo e desejo. Sentindo-me fragilizado por tal visão, de repente o tal Anjo se põe a cantar, nunca imaginaria que tivesse um canto tão belo, como o canto das sereias, cada vez mais me convidando a aproximação, muito embora o medo me fizesse recuar, sentia que a melodia que ele cantava soava como sedução aos ouvidos, porém me apavorava a possibilidade de entregar-me a perdição por trás daquele canto...então de repente, como que sem explicação, para a angustia dos meus ouvidos, o Anjo Calou...

28 de julho de 2010

Bruce Lee, o grande mestre das artes marciais.



Há 36 anos atrás (em Novembro de 1973) morria Bruce Lee, o maior artista marcial de todos os tempos. A fama de Bruce Lee se deve não apenas a seus filmes de artes marciais, mas também a sua habilidade como lutador de Kung Fu e a sua criatividade ao desenvolver um novo sistema marcial diferente de todos os estilos tradicionais de luta.
Bruce Lee, cujo nome chinês era Lee Jun Fan era filho de pai chinês e mãe alemã, nasceu em 1940 e sua morte em 1973 permanece até hoje um mistério indecifrável. O pequeno Dragão (Li Siu Long), como era chamado, sempre esteve relacionado às artes cênicas, uma vez que seu pai era artista da renomada ópera chinesa, e o próprio Bruce desde cedo participou de inúmeros filmes dramáticos. Sua relação com as artes marciais se deu quando era ainda adolescente, então passou a freqüentar escolas de kung fu e a se envolver em brigas de rua, mas só encontrou o que queria quando começou a praticar kung fu Ving Tchun com o mestre Yip Man. Foi através deste sistema marcial (considerado o mais simples, direto e eficiente dos estilos de kung fu), que Bruce Lee deu início a sua pretensão de se tornar protagonista de filmes de arte marcial.
Foi então que ele resolveu viajar para os Estados Unidos, onde começou a trabalhar em um restaurante chinês e a dar aulas de kung fu para alguns amigos, entre eles James Lee. Bruce estudou Filosofia na universidade de São Francisco, tendo defendido monografia sobre o pensamento dialético do filósofo alemão Hegel (1770-1831). Nesta época começou a fazer testes para a carreira de ator marcial e infelizmente não conseguiu o tão desejado papel de protagonista no seriado Kung Fu, o qual acabou sendo feito com David Carradine. Pouco tempo depois Bruce chegou a fazer relativo sucesso com a serie O Besouro Verde, no papel do ajudante Kato. Foi então que ele resolveu ir para Hong Kong e tentar uma carreira local, nesta empreitada ele conseguiu um papel como ator principal no filme O Dragão Chinês (The Big Boss), que o tornou conhecido e elevou-o a categoria de estrela de filmes de kung fu. Daí em diante vieram outros sucessos, como A Fúria do Dragão (The Chinese Connection), o Vôo do Dragão (The Way of the Dragon), com a participação de Chuck Norris, tendo Bruce Lee como diretor, mas seu verdadeiro sucesso veio com o filme clássico das artes marciais de todos os tempos, Operação Dragão (Enter the Dragon), com o tão sonhado patrocínio de Hollywood, além de um elenco de estrelas do cinema. Após este sucesso mundial de bilheteria, Bruce começou a dar andamento a outros projetos, entre eles a Flauta Mágica, o qual acabou se tornando o Jogo da Morte, devido à morte repentina do ator sem ter finalizado sua obra.
Sua morte trágica, em 1973, ainda hoje é um enigma, ainda mais porque alguns anos depois houve a morte também prematura de seu filho Brandon Lee, nas gravações do filme O Corvo. Entre as especulações sobre a morte de Bruce está aquela que relaciona sua morte com a máfia chinesa, pois segundo alguns ele estaria ensinando o kung fu para estrangeiros, o que muitos chineses na época consideravam verdadeiro sacrilégio, já que a China foi explorada durante muito tempo pelos ingleses e outros povos europeus, o que gerou insatisfação e xenofobia em relação aos estrangeiros (um dos fatos conhecidos do século XIX foi a guerra do ópio e a revolta dos boxers). Também se fala que durante as filmagens do filme Flauta Mágica, Bruce Lee tomou um comprimido de Equagesic, o qual causou um edema cerebral levando-o a morte, já que ele era alérgico a sua fórmula.   
Especulações a parte devemos lembrar que Bruce Lee inovou não apenas na linguagem e ação dos filmes de artes marciais, mas também foi o criador do Jeet Kune Do, um sistema marcial completo que sintetiza a contribuição das diversas artes marciais num todo dialético. Bruce escreveu dois livros essenciais a todo artista marcial, o primeiro Kung Fu Chinês (The chinese Gung Fu) e Tao do Jeet Kune Do (The Tao of Jeet Kune Do). Vale ressaltar que nenhum destes artistas de kung fu do cinema atual, tais como Jackie Chan e Jet Li, são comparáveis a Bruce Lee, muito embora sejam bons atores e até lutadores, mas não têm a consistência ideológica e filosófica do mestre.
Ele foi o Artista Marcial por excelência, porque usou suas habilidades e soube recriar o kung fu que estava até então estagnado em sua tradição milenar e transplantou-o para o cinema levando consigo toda sua carga filosófica que estava obscurecida pelas cenas de violência. Sua herança filosófica, marcial e cinematográfica permanece até hoje. Por essas razões, o pequeno Dragão será lembrado para todo sempre como o maior artista marcial de todos os tempos.   

19 de julho de 2010

O Povo Online - Sete deputados federais cearenses respondem a processos no STF

O Povo Online - Sete deputados federais cearenses respondem a processos no STF

A Igreja e a Pedofilia

A pedofilia tem sido um dos problemas que mais tem ocupado o espaço da grande mídia nos últimos tempos, um dos agravantes é que a Igreja Católica, uma das instituições com maior credibilidade e das que mais defende os direitos humanos tenha sido o alvo de grande parte das denuncias, envolvendo padres que tem usado de suas prerrogativas religiosas para o exercício desta forma de violência sexual. Qual a posição da Igreja diante da pedofilia? Como devem ser punidos os padres pedófilos?
Sobre a questão da violência sexual, nos diz o Catecismo: “A violação designa a entrada na intimidade sexual duma pessoa à força, com violência. É um atentado contra a justiça e a caridade. A violação ofende profundamente o direito de cada um ao respeito, à liberdade e à integridade física e moral. Causa um prejuízo grave, que pode marcar a vítima para toda a vida. É sempre um acto intrinsecamente mau. É mais grave ainda, se cometido por parentes próximos (incesto) ou por educadores contra crianças a eles confiadas” (Catecismo da Igreja Católica, parág.2356.)
Durante muitos séculos a Igreja teve que conviver com os dilemas de uma instituição que é a salvaguarda dos valores da família e da moralidade, e que ao mesmo tempo sofreu na pele a conseqüência das grandes mazelas da condição humana, corrupção, imoralidade, violência, desrespeito a dignidade humana. Não é de hoje que surgem casos de padres homossexuais e pedófilos, que servem como objeto de critica à Igreja, enquanto instituição. A homossexualidade tem sido o mote de criticas da parte de algumas igrejas protestantes que defendem o fim do celibato religioso, que segundo elas seria uma forma de conduta anti-natural e não fundamentada nas escrituras, ainda segundo estes grupos o celibato seria uma das razões para a existência da pedofilia na igreja, uma vez que os padres que não casam se tornariam propensos a este problema de identidade sexual. O fato é que a Igreja reconhece o grave problema que a pedofilia tem trazido à família, a célula mãe da sociedade e o primeiro espaço de evangelização, lugar sagrado, mas infelizmente a centralidade do poder papal, a defesa de interesses pessoais e as intrigas da cúria vaticana se tornaram uma muralha que impede qualquer debate sério destas questões, um verdadeiro muro da vergonha. Como a Igreja Católica, a grande defensora dos direitos humanos é capaz de permitir que no interior de suas fileiras aconteçam os maiores desagravos aos direitos da pessoa humana? O que aconteceu com os apelos morais e éticos que a Igreja tanto apregoa? Estas questões demonstram a fragilidade da Igreja, mas ao mesmo tempo sua arrogância e pretensão descabida de levantar a bandeira da defesa dos direitos humanos, quando não resolveu seus problemas internos, sua tarefa de casa, no que toca a estes mesmos direitos.
A Igreja deve, pois resolver em primeiro lugar seus pecados internos e sociais. A Igreja, enquanto instituição divina é infalível, mas ao mesmo tempo é composta por seres humanos, tem fragilidades e é passível de pecados. No que diz respeito ao pecado o próprio Catecismo é muito claro ao afirmar: “O pecado é um ato pessoal. Mas, além disso, nós temos responsabilidades nos pecados cometidos por outros, quando neles cooperamos: tomando parte neles, direta e voluntariamente; ordenando-os. Aconselhando-os, aplaudindo-os ou aprovando-os; não os denunciando ou não os impedindo, quando a isso obrigados; protegendo os que praticam  mal” (CIC, 1868). Numa posição extremamente complicada a Igreja fica diante de um dilema: agir de forma rigorosa e receber críticas como medieval, conservadora, totalitária e autoritária, ou tenta encobrir os escândalos e torna-se alvo de críticas mais ferozes ainda, como cúmplice e conivente.
O Papa Bento XVI já afirmou e reafirmou varias vezes a culpa e a responsabilidade da Igreja diante dos casos de abuso sexual, mas também já ratificou a posição clara da moral cristã, a de não só prevenir e punir tais abusos, mas curar e reconciliar, ou seja, o perdão sempre será um principio cristão irrecusável que a Igreja deve levar como bandeira a todos os povos, mesmo que bradem as vozes de vingança que se transvestem de justiça. Lembremos ainda que a pedofilia é um transtorno de personalidade e muitos pedófilos foram vitimas de abusos na infância, devem ser tratados não apenas punidos. Que estes pecados sociais cometidos pela Igreja, que tantos males causam aos seus membros, possam ser punidos para que a Igreja recupere sua credibilidade moral diante da sociedade, mas que ao mesmo tempo vitimas e algozes dessas violências encontrem em Jesus sua cura e conforto e na Igreja reconciliação e solidariedade.

30 de junho de 2010

A Bíblia na Literatura de Cordel


O Cordel é uma forma popular de poesia que permanece com toda firmeza, apesar das inovações tecnológicas e do pessimismo de muitos pesquisadores que o viam como artigo de museu. O Cordel adquiriu novas feições, mas sua essência mantém-se inalterada.
O tema que pretendemos abordar neste ensaio é a expressão popular (cordel) das histórias narradas na Bíblia. Para isso nos utilizaremos dos cordéis que dizem respeito a este tema seja a respeito das histórias do Antigo Testamento, seja do Novo Testamento, estas últimas concentram-se em torno da figura de Jesus Cristo. Além de atentar para estes temas este ensaio que influir para que se dê continuidade aos temas bíblicos que tanto tem repercussão no meio religioso nordestino, levando assim ao melhor conhecimento da Bíblia e sua difusão em forma poética (1).
Dividiremos o tema em dois subitens, ou seja, histórias do Antigo Testamento e do Novo Testamento em que se destaca a figura de Jesus.
Entre os folhetos utilizados podemos destacar para o Antigo Testamento: A história de José do Egito de José Bernardo da Silva, Sansão e Dalila e Salomão e Sulamita de Rouxinol do Rinaré, História da Rainha Ester de Arievaldo Viana Lima. Em relação ao Novo Testamento citamos: Um tributo a Jesus de Costa Senna e Marco Aurélio e Jesus Cristo, o Salvador, de Zé Vicente da Paraíba.
A importância do tema abordado está na própria origem da Bíblia que como se sabe é também uma escrita popular. A Bíblia, ou o conjunto de livros que compõem as escrituras judaicas, é um conjunto multiforme de lendas, mitos, contos, cânticos, hinos, salmos, histórias (não no sentido moderno do termo) e parábolas que narram a vida do povo hebreu e sua experiência do Transcendente (Deus). A Bíblia é uma biblioteca escrita pelo povo e para o povo, sendo uma forma pela qual ele (o povo) lê a sua história e reflete suas experiências à luz da inspiração divina.
De igual forma o Cordel é uma forma poética de refletir sobre as experiências do povo. Os Cordéis são uma biblioteca popular de lendas, fatos, anedotas, contos, sátiras e biografias. A importância do Cordel tem decrescido em relação aos novos meios de comunicação de massa, mas ele continua com seu espaço reservado. Ao contrário do que se pode imaginar as histórias narradas em cordel não deixam de refletir sobre aspectos diversos uma consciência coletiva popular, com seus conceitos e preconceitos.

1.    O Antigo Testamento.

Os cordéis que dizem respeito ao Antigo Testamento relatam a vida de quatro figuras distintas, a saber, José do Egito (Gêneses), Ester (Ester), Salomão e Sulamita (Livro dos Reis, Crônicas, Cânticos do Cânticos) e Sansão e Dalila (Juízes). Dois relatam a vida de pessoas singulares, José do Egito e Ester, e os outros dois narram os amores de Salomão e Sansão. As figuras em destaque nestas histórias, além dos protagonistas bíblicos, são mulheres: Ester, Sulamita, Dalila, etc. Com as figuras femininas estão todo o peso do preconceito e do machismo tanto judaico quanto nordestino, ambas as sociedades patriarcais em que a mulher ocupa lugar de inferioridade, veja-se, por exemplo, o caso do Gênese com Eva. Inferioridade esta contrabalançada pela figura de Maria no catolicismo popular.
Nos casos de Salomão e Sansão o amor aparece como o grande tema, perpassando pela traição e sedução. Já a figura de Ester traz uma mulher que luta pelo seu povo alcançando as graças do rei Assuero (Xerxes). Feita estas ressalvas sobre o tema passemos ao comentário mais detido do texto.
Uma das características marcantes do Cordel é o prólogo ou a invocação das musas, este recurso revela que o poeta em sua sábia humildade reconhece o dom recebido por inspiração, que ele não credita a si mesmo para vanglória, mas atribui a forças divinas e sobrenaturais, vejamos alguns exemplos:
Supremo Ser Incriado
Santo Deus Onipotente
Mande teus raios de luz
Ilumina a minha mente
Para transformar em versos
Uma história comovente.”

Ou estes de Rouxinol do Rinaré:

Peço, ó musa predileta,
A luz da inspiração
Pra este humilde poeta
Escrever com perfeição
Pra com a pena servi-la
Narro Sansão e Dalila
Nos enlaces da traição

Ainda de Rouxinol:
Me inspire ó musa divina
Com toda sabedoria
Dai-me da mais rica mina
As pérolas da poesia
Para rimar meu poema
Nesse interessante tema
Que escolhi neste dia...”

Este recurso traz em si uma beleza poética de extrema simplicidade e que não pode faltar no Cordel por sua introdução tradicional. Outras obras antigas também se iniciam desta forma como, por exemplo, em Homero e Hesíodo: “Canta, ó musa, a ira de Aquiles, filho de Peleu...” (Ilíada, canto I).
O Cordel “José do Egito” não traz invocação às musas, mas vai direto ao tema.
Logo após esta introdução ou invocação o autor nos expõe o tema abordado ou faz uma retrospectiva da história do tema, no caso dos temas bíblicos há reminiscências dos primeiros tempos que de alguma forma trazem o feixe da história narrada.
No caso dos temas de amor podemos citar estes versos de “Sansão e Dalila” de Rouxinol do Rinaré:
Desde o tempo de Adão
(Diz o Velho Testamento)
A mulher conquista o homem
Com malícia e argumento.
Eva, bela, encantadora,
Nua, fêmea e sedutora
Foi a mãe do sofrimento”.
Para introduzir o tema Rouxinol narra os casos de amor de Ló, Davi e Salomão para então passar a Sansão. A perspectiva é a da mulher sedutora e corruptora do homem, no caso Dalila. Este tema também é abordado no Cordel de José Bernardo da Silva ao falar da mulher de Potifar que tentou seduzir José do Egito, mas se viu frustrada e recorre à vingança contra ele:
Em poucos dias depois
A mulher de Potifar
Intentou vingar-se dele
Não pode realizar
Por meio da falsidade
Prometeu de se vingar

Disse ela a Potifar
Seu empregado é ruim
Inda ontem aquele infame
Dirigiu pilhéria a mim
Sendo eu a sua esposa
Não posso ficar assim.”
Muito embora neste Cordel o tema não envolva a questão da mulher o autor toca no assunto devido sua importância na trama bíblica, como forma de alerta sobre os perigos da paixão. José Bernardo da Silva procura simplesmente narrar a história de José sem ater-se muito a comentários moralistas a respeito de sua conduta.
Já no Cordel sobre Ester Arievaldo Viana aponta a figura de Ester como modelo do feminino, já uma prefiguração bíblica de Maria, a mulher virtuosa que defende seu povo tendo opção pelos fracos e desvalidos (ver o Magnificat de Maria, Lc.):
Falo da vida de Ester
Que na Bíblia está descrita
Era uma judia virtuosa
E extremamente bonita
Por obra e graça divina
Teve venturosa dita.”

E em defesa de seu povo Ester toma posição, como versa ainda Arievaldo:

O leitor deve lembrar
Que Ester, a bela rainha
Já sabia do decreto
E qual a sorte mesquinha
Destinada a seu povo
Porém o medo a detinha.

Há dias que ela esperava
Uma oportunidade
Para falar com o rei
Contar-lhe toda verdade
E, em favor de seu povo
Implorar-lhe a piedade.”



[1] Viana, Arievaldo


29 de maio de 2010

O papel das Musas na Literatura de Cordel


As musas são invocadas ao início de cada cordel de maneira quase mágica ou religiosa e são elas as responsáveis pela inspiração do poeta que como profeta revela a vontade de seu Deus. Mas como surgiu este costume ou artifício de invocar as musas qual seu papel na literatura de papel.
Para responder a este questionamento temos que retornar a Grécia arcaica aos mitos gregos para saber como surgiram estes seres divinos que são as musas. Logo no inicio de sua Ilíada Homero, séc. X a.C, invoca as musas para assegurar seu canto que na verdade é delas:“Canta, ó Musa, a ira de Aquiles filho de Peleu...”[1]
Observamos que o poeta é instrumento da Musa, é ela que canta, pois é ela que revela o acontecimento. Na Odisséia novamente o poema é iniciado com a invocação das Musas:“Musa, reconta-me os feitos do herói astucioso que muito peregrinou, desde que desfez as muralhas sagradas de Tróia”.[2]
Neste caso a musa reconta ao poeta as aventuras de Ulisses (Odisseus) e suas peripécias de volta a Ítaca. Já Hesíodo, séc. VII a.C, em sua obra “Teogonia” (origem dos deuses) revela quem são as musas e qual seu papel no mundo divino, elas são filhas de Zeus e Mnemosine (Memória) geradas na Piéria, nas colinas de Eleutera, e vivem no monte Hélicon cantando e dançando a volta da fonte de Zeus revelando a essência de todas as coisas, pois seu canto é ontofântico (manifesta o Ser das coisas), de seu nome vem a palavra ‘Música’ que significa a arte das musas. As Musas são em numero de oito: Calíope (belavoz), Clio (glória), Euterpe (Alegria), Tália (festa), Melpomene (dançarina), Erato (amorosa), Ourânia (celeste) e Terpsícore (Alegra-coro). Cada uma delas preside uma forma de arte (Tragédia, Musica, Dança, Canto, Poesia...) e estão presentes nas manifestações escritas dos poetas, e todos os que se utilizam da palavra, como Heródoto, cujos capítulos de suas Histórias estão divididos e intitulados com o nome de cada musa.
Assim inicia-se a Teogonia de Hesíodo:
Pelas musas heliconíades comecemos a cantar. Elas têm grande e divino o monte Helicon, em volta da fonte violácea com pés suaves dançam e do altar do bem forte filho de Cronos (Zeus)...” [3]
Em um período arcaico de cultura oral e economia pastoril onde não havia escrita ou alfabeto, moeda, pólis, etc, a palavra falada tinha uma importância crucial e aqueles que dominavam os recursos mnemônicos e poéticos eram reverenciados de maneira especial por ser ‘expert’ na arte da comunicação, como nos diz Jaa Torrano:
O aedo (Hesíodo) se põe ao lado e às vezes por cima dos ‘basileis’ (reis), nobres locais que detinham o poder de conservar e interpretar as fórmulas pré-juridicas não-escritas e administrar a justiça entre querelantes e que encarnavam a autoridade mais alta entre os homens”.[4]
Essa importância da poesia e do poeta “reside no fato de o poeta (...) ser um cultor da memória (no sentido religioso e no da eficiência pratica) e em parte no imenso poder entre os povos ágrafos que sentem na força da palavra e que a adoção do alfabeto solapou até quase destruir.”[5]
O canto das musas é a presentificação do Ser e o dar-se do Ser, é através do seu canto que tudo se desvela e manifesta, daí a importância de nomeá-las e ser um instrumento de seu canto. Elas encontram o pastor Hesíodo e o revelam seus desígnios como nos conta o mesmo poeta em sua Teogonia:
“Elas um dia a Hesíodo ensinaram belo canto quando pastoreava ovelhas ao pé do Hélicon divino. Esta palavra primeiro disseram-me as Deusas Musas Olimpíades, virgens de Zeus porta-égide: ‘Pastores agrestes, vis infâmias e ventres só, sabemos muitas mentiras dizer símeis aos fatos e sabemos, se queremos, dar a ouvir revelações”.[6]
Fica claro o quanto as musas eram importantes para os poetas, enquanto fonte de inspiração e também o quanto os poetas eram reconhecidos na sociedade grega arcaica, enquanto mensageiros dos deuses e cultores da memória (deusa) e do canto.
Em relação à poesia popular, em especial a literatura de Cordel, é intrigante notar esta mesma valorização do papel das musas em seu labor poético numa cultura distante histórica e geograficamente da Grécia, apesar de assemelhar-se em seu caráter pastoril e agrícola, sem imprensa ou meios de comunicação, onde o poeta popular representa uma tradição oral requintada. O papel do cordelista aproxima-se nesse sentido do aedo grego na medida em que os fatos históricos, políticos, sociais e religiosos serem revelados pela arte e expressão. Ainda em relação à invocação das musas vejamos como se manifestam alguns poetas populares sobre sua inspiração:
“A musa que me inspirou
Me traçou planos e metas
Para eu falar de amor
Sofrimentos e desenganos
Da crua realidade
Da vil bestialidade
De alguns seres humanos[7]
Como podemos constatar o poeta se sente não só inspirado pela musa, mas reconhece um plano e meta que atribui a esta, como que levado inconscientemente a esta escrita poética.
“Me inspire ó musa divina
Com toda sabedoria
Daí-me da mais rica mina
As pérolas da poesia
Para rimar meu poema
Nesse interessante tema
Que escolhi neste dia”.[8]

A musa é em vários casos citada como mãe da poesia e também da sabedoria, revelando assim o nexo entre a palavra poética e a sabedoria, pois aquela revela e desvela a verdade.
“Ó deusa iluminadora
Musa mãe da poesia
Vem guiar a minha pena
Pra com rima e simetria
Descortinar o passado Falar do mundo encantado
De lendas e fantasia”[9]

Também neste cordel do poeta Evaristo Geraldo:

Musa mãe da poesia
Me encha de inspiração
Para narrar uma história
Sobre uma grande nação
Que é povo chinês
De milenar tradição”[10]
Em alguns casos raros é de se notar a mudança na invocação que é transferida da Musa ao próprio Deus (não o Zeus grego), como podemos notar em alguns casos, o que nos leva a refletir qual a razão desta mudança.
“Peço a Deus Pai infinito
Arquiteto do universo
Que na fonte criadora
Possa me manter imerso
Pois sinto-me no dever
De um grande herói descrever
Do primeiro ao último verso.” [11]

Também neste de Arievaldo Viana:

“Supremo Ser incriado
Santo Deus onipotente
Manda teus raios de luz
Ilumina minha mente
Para transformar em versos
Um historia comovente”.[12]

Há casos ainda em que de acordo com o tema a invocação pode ser ainda mais  estranha, mas em consonância com o tema:

“Velho gênio do Saara
De poder maravilhosa
Dá-me luz de sua lâmpada
Na historia de Trancoso
O príncipe do Oriente
E o passaro misterioso”.[13]


[1] Homero, Ilíada, Canto I
[2] Idem, Odisséia, Canto I.
[3] Hesíodo, Teogonia, proêmio. São Paulo Iluminuras.
[4] Torrano, Jaa. Introdução a Teogonia. In: Hesíodo. Teogonia.SP, Iluminuras.
[5] idem
[6] Hesíodo. Teogonia. Proêmio, p.25-35.
[7] Rouxinol do Rinaré. Violação, p.01.
[8] Idem. Salomão e Sulamita, o cântico sacro do amor, p.01.
[9] Idem. O colar de pérolas..., p.01.
[10] Evaristo Geraldo. O imperador amarelo. p.01.
[11] Rouxinol do Rinaré. Rodolfo Teófilo..,  p.01.
[12] Arievaldo Viana. História da Rainha Ester. P.01.
[13] Klévisson Viana. O príncipe do Oriente..., p.01.

A amizade no Lísis de Platão


Dentre as relações humanas destacam-se as várias formas de amor. O amor era entendido pelos gregos a partir de vários conceitos ou dimensões especificas, tais como: o amor erótico (Eros), a amizade (Philía), o amor espiritual (Ágape), etc. A amizade é uma das primeiras relações que os homens mantêm entre si em sua cotidianidade, e sua análise do ponto de vista filosófico é de grande importância, fato comprovado tanto pela análise feita pelos filósofos gregos mais importantes como Pitágoras, Platão e Aristóteles, Epicuro, além de Cícero e Sêneca (em Roma), como pela sua imediata proximidade na vida humana, no sentido de ser esta amizade uma relação espontânea.
Talvez em nenhum outro lugar a amizade assumisse tão grande importância quanto na Grécia clássica. Já nos tempos heróicos temos conhecimento da amizade perene entre Aquiles e Pátroclo, enfatizada na Ilíada de Homero, e no período clássico Sócrates é conhecido como admirador da amizade no seu sentido mais autêntico. O termo grego philía, que traduzimos por amizade é importante para se compreender inclusive a própria palavra “philosophia”, que remonta segundo a tradição a Pitágoras, que com grande humildade não queria ser chamado sábio (sofos - sophos), mas amigo (filos - philos) da sabedoria (sofia - sofia), reflexo disso também observamos em Sócrates, que ao dizer que sabia que nada sabia foi considerado o mais sábio entre os gregos pelo oráculo de Delfos.
Platão chegou a escrever um diálogo sobre tal assunto chamado Lísis, um diálogo da juventude no estilo maiêutico, tendo como principal interlocutor Sócrates. Lísis (lisis em grego) significa ‘libertação’ e, de certo modo, podemos compreender que a amizade nos possibilita uma saída do mundo sensível em direção ao mundo inteligível e do sumo Bem, ou seja, uma libertação das aparências, este que é o escopo da filosofia platônica. Também Aristóteles trata da questão da amizade em seu livro Ética a Nicômaco (livro VIII), dividindo-a em três tipos: a amizade por utilidade, por prazer e por virtude.
Segundo Epicuro: “De todas as coisas que nos oferece a sabedoria para a felicidade de toda a vida, a maior é a aquisição da amizade”.  Epicuro é conhecido pela valorização da amizade, talvez o bem mais precioso cultivado no seu famoso jardim. Em muitos de seus aforismos destaca-se a importância dada à amizade como um bem e uma fonte de felicidade, seja para jovens, crianças e idosos.
A filosofia em sua essência só se dá numa relação amistosa, ou seja, a amizade à sabedoria pode ser compreendida também como uma sabedoria da amizade. Isto é evidente na medida em que os grandes filósofos sempre trataram a amizade como uma relação fundamental não apenas para a vida humana em geral, mas como condição de possibilidade do diálogo filosófico. Haveria diálogo possível entre inimigos?

28 de abril de 2010

Justiça ou Vingança?


Tornou-se regra comum em programas policiais a apresentação de populares pedindo ‘justiça’. O que se entende por justiça? O que é justiça para a populaça sedenta de sangue, e na maioria levada pela emoção? Qual conceito de justiça é proclamado pelos programas policiais? Seria aquele do direito vigente em nosso país ou uma justiça voltada para interesses mesquinhos?
O grande problema está na espetacularização da criminalidade que cria um clima de tensão, medo e insegurança constantes, sendo uma forma de envolver a população num transe direcionado para interesses de grupos políticos sedentos de poder. Devemos convir que o coro daqueles que pedem justiça na verdade acaba sendo desviado para a idéia de vingança, uma vez que não se reconhecem os diretos daqueles que estão sob a tutela da policia e da justiça, os presos. Suas imagens são utilizadas para reforçar a apelação sensacionalista dos apresentadores que bradam contra as ‘autoridades’, como sempre citadas impessoalmente, de forma a mascarar suas reais pretensões de audiência. Um dos maiores absurdos destes programas ditos ‘policiais’, mas que na verdade tornaram-se programas de entretenimento, é o horário em que são veiculados, na hora do almoço, onde se apresentam verdadeiros banquetes de sangue para toda a família que assiste curiosa aos crimes cometidos em seus bairros. Nem as crianças são poupadas deste espetáculo sangrento. Tais programas deveriam, pelo mínimo de bom senso, serem apresentados depois das 22 horas, pois a banalização da criminalidade e a espetacularização da miséria se tornaram os carros-chefes destes programas.
A maioria destes programas ferem a própria constituição federal, ao julgarem sumariamente e condenarem os acusados, pois usam suas imagens que são veiculadas numa espécie de vingança coletiva, aviltando os mesmos. Isso é evidente quando se usam os epítetos mais absurdos, como por exemplo, se tornou praxe entre os acusados de pedofilia, o de ‘monstros’ e ‘desqualificados’, entre outros.  Podemos acrescentar o brado revoltado destes justiceiros da mídia contra o que chamam de direitos humanos, como se os presos ou acusados perdessem sua humanidade, uma vez tenham cometido algum delito. Ora, só o homem entre todos os animais é capaz de cometer tais atrocidades de forma cruel, este uso desastroso que se faz da mídia com apelação moral é um dos maiores agravos que temos que suportar.
Não bastasse na maioria das vezes, apresentadores se candidatarem a cargos públicos, aproveitando-se da confusão na mente da população entre usar a mídia e lutar pelos direitos humanos, que eles mesmos ridicularizam. Falam de direitos humanos como uma entidade acima de tudo e de todos que defende apenas os ditos ‘vagabundos’, que não enxerga o sofrimento das vitimas da criminalidade. Não levam em consideração a verdadeira causa da criminalidade que é sempre apontada como falta de policia, relegando a verdadeira causa para segundo plano. 

22 de abril de 2010

Sobre a emancipação de Pajuçara


Atualmente a população de Pajuçara reivindica a emancipação do distrito, que foi estabelecido em 1990 por projeto de lei municipal, o qual é questionado por vários líderes comunitários pajuçarenses, mas que pode garantir sua possível emancipação sem prejuízo à sede, Maracanaú. Para os contestadores, os limites estabelecidos no projeto original estão aquém dos verdadeiros marcos limítrofes de Pajuçara, que antigamente abrangiam a lagoa de Pajuçara, boa parte do atual conjunto Timbó, a estação de trem do Acaracuzinho (foto acima), bem como sua lagoa, indo até a vizinhança do atual Planalto Airton Senna. Questionamentos a parte, é certo que sua população anseia por uma vida independente de Maracanaú, pois Pajuçara não tem tido o crescimento que merecia e que tem sido muito prometido em período de campanha eleitoral.
Pajuçara tornou-se uma das localidades mais violentas do Ceará, como revelam os noticiários desde 2008, com mais de 50 assassinatos, isso se deve ao fato de não haver nenhuma ação de combate ao trafico de drogas, apenas paliativos como o CAPS. Verificamos também a falta investimentos na área de trabalho, cultura, lazer e esporte no distrito. Boa parte da juventude tem sido marginalizada das políticas públicas, que se concentram apenas em Maracanaú e não chegam com eficácia ao distrito. Pajuçara conta hoje com uma população de mais de 50 mil habitantes, sendo uma região decisiva do ponto de vista eleitoral, mas que mesmo assim fica em segundo plano em relação ao centro de Maracanaú. O volume de recursos arrecadados no distrito parece não ser reinvestido em benefícios para o mesmo. Por essas razões os habitantes mais esclarecidos deste distrito percebem que apenas a emancipação pode ajudar no desenvolvimento da região, uma vez que não é de interesse do poder municipal de Maracanaú, especialmente devido o caráter independente e oposicionista dos eleitores deste distrito. Infelizmente, muitos políticos deserdados de Maracanaú, que nos bastidores eram contra a emancipação, têm se lançado como lideranças pela emancipação de Pajuçara de forma oportunista e politiqueira.
Além de tudo que já foi dito podemos acrescentar que o distrito de Pajuçara possui vários requisitos suficientes para reivindicar a emancipação. Pajuçara possui, por exemplo, bancos, indústrias, agência dos correios, microempresas, biblioteca, delegacia do trabalho, escolas, igrejas, sendo inclusive sede de uma paróquia, a de Nossa Senhora da Conceição fundada em 1990. Em suma, Pajuçara possui essas e outras coisas necessárias a uma cidade. Resta então unir forças e organizar a comunidade para lutar por uma independência mais que merecida, que não seja apenas o reflexo da acumulação de riquezas e de sua má distribuição, como tem acontecido em muitos lugares, mas que seja uma verdadeira oportunidade de realizar todas as suas possibilidades de crescimento econômico, político, social e cultural.