29 de maio de 2010

O papel das Musas na Literatura de Cordel


As musas são invocadas ao início de cada cordel de maneira quase mágica ou religiosa e são elas as responsáveis pela inspiração do poeta que como profeta revela a vontade de seu Deus. Mas como surgiu este costume ou artifício de invocar as musas qual seu papel na literatura de papel.
Para responder a este questionamento temos que retornar a Grécia arcaica aos mitos gregos para saber como surgiram estes seres divinos que são as musas. Logo no inicio de sua Ilíada Homero, séc. X a.C, invoca as musas para assegurar seu canto que na verdade é delas:“Canta, ó Musa, a ira de Aquiles filho de Peleu...”[1]
Observamos que o poeta é instrumento da Musa, é ela que canta, pois é ela que revela o acontecimento. Na Odisséia novamente o poema é iniciado com a invocação das Musas:“Musa, reconta-me os feitos do herói astucioso que muito peregrinou, desde que desfez as muralhas sagradas de Tróia”.[2]
Neste caso a musa reconta ao poeta as aventuras de Ulisses (Odisseus) e suas peripécias de volta a Ítaca. Já Hesíodo, séc. VII a.C, em sua obra “Teogonia” (origem dos deuses) revela quem são as musas e qual seu papel no mundo divino, elas são filhas de Zeus e Mnemosine (Memória) geradas na Piéria, nas colinas de Eleutera, e vivem no monte Hélicon cantando e dançando a volta da fonte de Zeus revelando a essência de todas as coisas, pois seu canto é ontofântico (manifesta o Ser das coisas), de seu nome vem a palavra ‘Música’ que significa a arte das musas. As Musas são em numero de oito: Calíope (belavoz), Clio (glória), Euterpe (Alegria), Tália (festa), Melpomene (dançarina), Erato (amorosa), Ourânia (celeste) e Terpsícore (Alegra-coro). Cada uma delas preside uma forma de arte (Tragédia, Musica, Dança, Canto, Poesia...) e estão presentes nas manifestações escritas dos poetas, e todos os que se utilizam da palavra, como Heródoto, cujos capítulos de suas Histórias estão divididos e intitulados com o nome de cada musa.
Assim inicia-se a Teogonia de Hesíodo:
Pelas musas heliconíades comecemos a cantar. Elas têm grande e divino o monte Helicon, em volta da fonte violácea com pés suaves dançam e do altar do bem forte filho de Cronos (Zeus)...” [3]
Em um período arcaico de cultura oral e economia pastoril onde não havia escrita ou alfabeto, moeda, pólis, etc, a palavra falada tinha uma importância crucial e aqueles que dominavam os recursos mnemônicos e poéticos eram reverenciados de maneira especial por ser ‘expert’ na arte da comunicação, como nos diz Jaa Torrano:
O aedo (Hesíodo) se põe ao lado e às vezes por cima dos ‘basileis’ (reis), nobres locais que detinham o poder de conservar e interpretar as fórmulas pré-juridicas não-escritas e administrar a justiça entre querelantes e que encarnavam a autoridade mais alta entre os homens”.[4]
Essa importância da poesia e do poeta “reside no fato de o poeta (...) ser um cultor da memória (no sentido religioso e no da eficiência pratica) e em parte no imenso poder entre os povos ágrafos que sentem na força da palavra e que a adoção do alfabeto solapou até quase destruir.”[5]
O canto das musas é a presentificação do Ser e o dar-se do Ser, é através do seu canto que tudo se desvela e manifesta, daí a importância de nomeá-las e ser um instrumento de seu canto. Elas encontram o pastor Hesíodo e o revelam seus desígnios como nos conta o mesmo poeta em sua Teogonia:
“Elas um dia a Hesíodo ensinaram belo canto quando pastoreava ovelhas ao pé do Hélicon divino. Esta palavra primeiro disseram-me as Deusas Musas Olimpíades, virgens de Zeus porta-égide: ‘Pastores agrestes, vis infâmias e ventres só, sabemos muitas mentiras dizer símeis aos fatos e sabemos, se queremos, dar a ouvir revelações”.[6]
Fica claro o quanto as musas eram importantes para os poetas, enquanto fonte de inspiração e também o quanto os poetas eram reconhecidos na sociedade grega arcaica, enquanto mensageiros dos deuses e cultores da memória (deusa) e do canto.
Em relação à poesia popular, em especial a literatura de Cordel, é intrigante notar esta mesma valorização do papel das musas em seu labor poético numa cultura distante histórica e geograficamente da Grécia, apesar de assemelhar-se em seu caráter pastoril e agrícola, sem imprensa ou meios de comunicação, onde o poeta popular representa uma tradição oral requintada. O papel do cordelista aproxima-se nesse sentido do aedo grego na medida em que os fatos históricos, políticos, sociais e religiosos serem revelados pela arte e expressão. Ainda em relação à invocação das musas vejamos como se manifestam alguns poetas populares sobre sua inspiração:
“A musa que me inspirou
Me traçou planos e metas
Para eu falar de amor
Sofrimentos e desenganos
Da crua realidade
Da vil bestialidade
De alguns seres humanos[7]
Como podemos constatar o poeta se sente não só inspirado pela musa, mas reconhece um plano e meta que atribui a esta, como que levado inconscientemente a esta escrita poética.
“Me inspire ó musa divina
Com toda sabedoria
Daí-me da mais rica mina
As pérolas da poesia
Para rimar meu poema
Nesse interessante tema
Que escolhi neste dia”.[8]

A musa é em vários casos citada como mãe da poesia e também da sabedoria, revelando assim o nexo entre a palavra poética e a sabedoria, pois aquela revela e desvela a verdade.
“Ó deusa iluminadora
Musa mãe da poesia
Vem guiar a minha pena
Pra com rima e simetria
Descortinar o passado Falar do mundo encantado
De lendas e fantasia”[9]

Também neste cordel do poeta Evaristo Geraldo:

Musa mãe da poesia
Me encha de inspiração
Para narrar uma história
Sobre uma grande nação
Que é povo chinês
De milenar tradição”[10]
Em alguns casos raros é de se notar a mudança na invocação que é transferida da Musa ao próprio Deus (não o Zeus grego), como podemos notar em alguns casos, o que nos leva a refletir qual a razão desta mudança.
“Peço a Deus Pai infinito
Arquiteto do universo
Que na fonte criadora
Possa me manter imerso
Pois sinto-me no dever
De um grande herói descrever
Do primeiro ao último verso.” [11]

Também neste de Arievaldo Viana:

“Supremo Ser incriado
Santo Deus onipotente
Manda teus raios de luz
Ilumina minha mente
Para transformar em versos
Um historia comovente”.[12]

Há casos ainda em que de acordo com o tema a invocação pode ser ainda mais  estranha, mas em consonância com o tema:

“Velho gênio do Saara
De poder maravilhosa
Dá-me luz de sua lâmpada
Na historia de Trancoso
O príncipe do Oriente
E o passaro misterioso”.[13]


[1] Homero, Ilíada, Canto I
[2] Idem, Odisséia, Canto I.
[3] Hesíodo, Teogonia, proêmio. São Paulo Iluminuras.
[4] Torrano, Jaa. Introdução a Teogonia. In: Hesíodo. Teogonia.SP, Iluminuras.
[5] idem
[6] Hesíodo. Teogonia. Proêmio, p.25-35.
[7] Rouxinol do Rinaré. Violação, p.01.
[8] Idem. Salomão e Sulamita, o cântico sacro do amor, p.01.
[9] Idem. O colar de pérolas..., p.01.
[10] Evaristo Geraldo. O imperador amarelo. p.01.
[11] Rouxinol do Rinaré. Rodolfo Teófilo..,  p.01.
[12] Arievaldo Viana. História da Rainha Ester. P.01.
[13] Klévisson Viana. O príncipe do Oriente..., p.01.

A amizade no Lísis de Platão


Dentre as relações humanas destacam-se as várias formas de amor. O amor era entendido pelos gregos a partir de vários conceitos ou dimensões especificas, tais como: o amor erótico (Eros), a amizade (Philía), o amor espiritual (Ágape), etc. A amizade é uma das primeiras relações que os homens mantêm entre si em sua cotidianidade, e sua análise do ponto de vista filosófico é de grande importância, fato comprovado tanto pela análise feita pelos filósofos gregos mais importantes como Pitágoras, Platão e Aristóteles, Epicuro, além de Cícero e Sêneca (em Roma), como pela sua imediata proximidade na vida humana, no sentido de ser esta amizade uma relação espontânea.
Talvez em nenhum outro lugar a amizade assumisse tão grande importância quanto na Grécia clássica. Já nos tempos heróicos temos conhecimento da amizade perene entre Aquiles e Pátroclo, enfatizada na Ilíada de Homero, e no período clássico Sócrates é conhecido como admirador da amizade no seu sentido mais autêntico. O termo grego philía, que traduzimos por amizade é importante para se compreender inclusive a própria palavra “philosophia”, que remonta segundo a tradição a Pitágoras, que com grande humildade não queria ser chamado sábio (sofos - sophos), mas amigo (filos - philos) da sabedoria (sofia - sofia), reflexo disso também observamos em Sócrates, que ao dizer que sabia que nada sabia foi considerado o mais sábio entre os gregos pelo oráculo de Delfos.
Platão chegou a escrever um diálogo sobre tal assunto chamado Lísis, um diálogo da juventude no estilo maiêutico, tendo como principal interlocutor Sócrates. Lísis (lisis em grego) significa ‘libertação’ e, de certo modo, podemos compreender que a amizade nos possibilita uma saída do mundo sensível em direção ao mundo inteligível e do sumo Bem, ou seja, uma libertação das aparências, este que é o escopo da filosofia platônica. Também Aristóteles trata da questão da amizade em seu livro Ética a Nicômaco (livro VIII), dividindo-a em três tipos: a amizade por utilidade, por prazer e por virtude.
Segundo Epicuro: “De todas as coisas que nos oferece a sabedoria para a felicidade de toda a vida, a maior é a aquisição da amizade”.  Epicuro é conhecido pela valorização da amizade, talvez o bem mais precioso cultivado no seu famoso jardim. Em muitos de seus aforismos destaca-se a importância dada à amizade como um bem e uma fonte de felicidade, seja para jovens, crianças e idosos.
A filosofia em sua essência só se dá numa relação amistosa, ou seja, a amizade à sabedoria pode ser compreendida também como uma sabedoria da amizade. Isto é evidente na medida em que os grandes filósofos sempre trataram a amizade como uma relação fundamental não apenas para a vida humana em geral, mas como condição de possibilidade do diálogo filosófico. Haveria diálogo possível entre inimigos?