1 de abril de 2018

Folclore em torno do apóstolo São Tomé



Uma das figuras mais misteriosas e intrigantes do Novo Testamento é Tomé, o Dídimo (gêmeo), seu nome percorreu o mundo, partindo da Palestina, atravessando o Oriente e chegando até a América. Falaremos neste ensaio sobre as várias versões e lendas a respeito de Tomé.
Segundo o texto bíblico: “Um dos doze, Tomé, o dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Os outros discípulos, então lhe disseram: Vimos o Senhor! Mas ele lhes disse: ‘Se não vir em suas mãos o lugar dos cravos e se não puser o meu dedo no lugar dos cravos e minha mão no seu lado, não crerei.’ Oito dias depois achavam-se os discípulos, de novo, dentro de casa, e também Tomé com eles. Veio Jesus,estando as portas fechadas,pôs-se no meio deles e disse: ‘A paz esteja convosco’. Disse depois a Tomé: ‘Põe o teu dedo aqui e vê minhas mãos! Estende tua mão e põe-na no meu lado e não sejas incrédulo,mas crê!’ Respondeu-lhe Tomé: ‘Meu Senhor e meu Deus’. Jesus lhe disse: ‘Porque viste, creste,felizes os que não viram e creram” (João 20, 24-29). O evangelista quis representar o incrédulo ou o que só crê no que vê e toca, alguém que não tem convicção espiritual, mas, se, por um lado é um possível descrente, por outro lado é uma pessoa que não se contenta com boatos e comentários, porém Jesus lhe ensina a crer em algo que ultrapassa os sentidos,como dirá Paulo: “A fé é uma posse antecipada do que se espera um meio de demonstrar as realidades que não se vêem. Foi por ela que os antigos deram seu testemunho” (Hebreus 11,1-2).
Segundo fontes encontradas no Egito em 1946, sob nome Nag Hammadi, há um manuscrito, provavelmente dos séculos II e III de nossa era, denominado Evangelho de Tomé, um escrito apócrifo gnóstico, onde se narra palavras de Jesus a Tomé, o gêmeo: “Eis as palavras secretas ditas por Jesus, o Vivente, escritas por Judas Tomé, o gêmeo” (O Evangelho de Tomé). A forma do Evangelho de Tomé tem como característica principal ditos de Jesus, que revelam uma tradição de coleções de ditos e/ou feitos do mestre colocados sem uma sequência orgânica, em seu conteúdo trata de temas caros aos gnósticos, onde Jesus representa o homem perfeito e seus ditos misteriosos encontram sua interpretação dentro da simbologia da escola gnóstica, muitos dos ditos são variações daqueles dos evangelhos canônicos. Eis alguns: “1. E ele disse: Aquele que encontrar a interpretação destas palavras não provará a morte”,“42. Jesus disse: Sede passantes”,“112. Jesus disse: Infeliz da carne que depende da alma; infeliz da alma que depende da carne” (O Evangelho de Tomé).
Mas isso não é tudo no que diz respeito a nossa curiosa figura, restam ainda as lendas e relatos sobre a passagem de Tomé pelo Oriente (Índia) e pela América (México e Brasil), pois segundo se sabe ele foi o ‘apóstolo das Índias’. Existem alguns relatos de viajantes como Marco Pólo e Francisco Xavier, que atravessaram a Europa rumo à China e Japão e descrevem vários costumes dos povos asiáticos, do primeiro podemos ler em sua narrativa das viagens chamado ‘Milione’ (O Livro das maravilhas) algo sobre Tomé: “O corpo de São Tomé, o apóstolo, encontra-se na província de Maabar (...) Os sarracenos desta região são muito devotos de São Tomé, porque acham que ele foi um grande profeta sarraceno, razão porque o chamam de ‘Varria’, isto é, Santo.(...) Este santo cura todos os leprosos cristãos. Eis como ele morreu, (...). São Tomé estava orando numa ermida, num bosque, cercado de pavões (...). Enquanto rezava, um caçador da casta dos ghavi, que andava caçando pavões atirou uma flecha para caçar uma daquelas aves, e uma outra nas costas de São Tomé, que ele não vira. Ferido desse modo o santo continuou orando docemente, até exalar o último suspiro e entregar sua alma a Deus. Antes de ter se retirado para a ermida desse bosque, ele já havia operado umas conversões de indianos ao cristianismo.” (Pólo, Marco. Il Milione).
Como vemos, Tomé gozava de grande estima mesmo entre os pagãos orientais e como no período das descobertas a América era confundida com o Oriente era lógico crer que se encontrariam indícios do que Marco Pólo narrou, o qual tinha muito prestígio entre os europeus, pois estes não conheciam muito ou mesmo nada do Oriente. A idéia de que Tomé estivera nas Índias logo se fortaleceu quando do contato entre europeus e indígenas, o que nos atestam os relatos dos Jesuítas. Há analogias de Tomé com o famoso deus Quetzalcoatl (a serpente emplumada) do México, que significa ‘gêmeo’ como o Tomé bíblico, e esse deus Tolteca tinha uma ‘cruz’ em seu chapéu de ponta (por ser o deus dos quatro pontos cardeais). Segundo Enrique Dussel, filósofo e historiador argentino, esta cruz e sua relação com o grande dilúvio e ‘tantos outros signos’, fez com que o Pe Diego Duran pensasse que o sacerdote e rei tolteca – e depois deus – era nada menos que o apóstolo Tomé, que da Palestina teria ido á Índia e dali teria vindo ao México.
Também no Brasil encontramos relatos sobre a lenda de Tomé (Sumé ou Zomé) entre nossos índios, descrita pelo célebre Câmara Cascudo, no ‘Dicionário do Folclore Brasileiro’: “Sumé personagem misteriosa, homem branco que, antes do descobrimento, apareceu entre os indígenas, ensinando-lhes o cultivo da terra e regras morais. Repelido, abandonou a região, caminhando sobre as águas do mar. “Dizem eles que São Tomé, a quem eles chamam Zomé passou por aqui, isto lhes ficou por dito por seus antepassados e que suas pisadas estão assinaladas junto de um rio; as que eu fui ver por mais certeza de verdade e vi com os próprios olhos, quatro pisadas mui grandes com seus dedos,as quais algumas cobre o rio,quando enche; dizem também que quando deixou estas pisadas,ia fugindo dos índios que o queriam frechar, e chegando ali se lhe abrira o rio e passara por meio dele à outra parte,sem se molhar e dali foi para a Índia. Assim mesmo contam que, quando o queriam frechar os índios, as frechas se tornavam para eles, e os matos lhe faziam caminho por onde passasse.” (Manuel da Nóbrega, Cartas do Brasil, 101, a carta é de 1549).
Continua Câmara Cascudo: “Também é tradição antiga entre eles que veio o bem-aventurado apóstolo São Tomé a esta Bahia, e lhes deu a planta de Mandioca e das bananas de São Tomé; e eles, em paga deste benefício e de lhes ensinar que adorassem e servissem a Deus e não ao demônio,que não tivessem senão uma mulher e não comessem carne humana,o quiseram matar e comer, seguindo com efeito até uma praia onde o santo se passou,de uma passada,a ilha de Maré, distância de meia légua, e daí não sabem por onde. Devia de ser indo para a índia,que quem tais passadas bem podia correr todas estas terras, e quem as havia de correr também convinha que desse tais passadas.” (Frei Vicente de Salvador, Historia do Brasil (1627), 103). Também o Pe Antonio Vieira nos dá algumas indicações sobre a lenda a respeito do apóstolo Tomé no Brasil em seus “Sermões”.
              Concluindo, podemos perceber como determinadas figuras míticas e lendárias como a de Tomé, o apóstolo, podem ter uma continuidade na cultura popular, atravessando o tempo e o espaço, servindo de arquétipo do homem santo, do grande civilizador e ainda do missionário além-fronteiras. 


Referências
Bíblia de Jerusalém
Marco Polo, O livro das Maravilhas.
Cascudo, Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro
Padre Antonio Vieira. Sermões
VVAA. O Evangelho de Tomé. in: Apócrifos da Bíblia.

22 de dezembro de 2014

O significado pascal do Natal

    
  O Natal do Senhor é uma das mais belas festas do calendário litúrgico do Cristianismo, muito embora poucos saibam que ela não é a principal, a celebração da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus (a Páscoa) é o eixo da liturgia e doutrina cristã (Catecismo, 2ª parte, 1169). Tentaremos apresentar brevemente alguns temas do Natal a partir da chave de leitura pascal, ou seja, entender o significado pascal do Natal, pois os evangelhos foram escritos após a experiência da ressurreição de Jesus e devem ser lidos sob essa chave de leitura.
   As narrativas do nascimento de Jesus se encontram apenas nos evangelhos escritos por Mateus e Lucas (Mt cap. 1-2, Lc 1-2), enquanto os evangelhos segundo Marcos (considerado o primeiro a ser escrito) e o de João (que não é sinótico), iniciam com o encontro de Jesus com João Batista (Mc 1; João 1), por quem foi batizado para cumprir toda a justiça. Originalmente a narrativa dos evangelhos iniciava no Batismo de Jesus, seguia sua missão (palavras e ações) e encerrava com sua Paixão. As narrativas do Natal são, pois, escritas segundo a experiência pascal e por sua luz devem ser lidas. A estrutura da narrativa natalina com variações em Mateus e Lucas se constitui de uma forma básica: genealogia, anunciação, gravidez de Maria, encontro com Isabel, nascimento de Jesus, encontro com os Magos, perseguição de Herodes, fuga para o Egito, apresentação de Jesus no templo. 
    As genealogias traçam a descendência de Jesus desde Adão, passando por Abraão e culmina em Davi, o rei ungido, nascendo em Belém da Judéia (Mt 1,1; Lc 2, 23-38)). O nome Belém (hebraico Beit-lehem) significa a ‘casa do pão’ e nos faz lembrar o anuncio da paixão de Jesus que se apresenta na Ceia pascal como “o pão descido do céu”, o pão que será partido, partilhado por todos, cuja carne e sangue são sinais de amor e entrega por nossa salvação (João 6, 48-58). O nascimento numa manjedoura (Lc 2, 16) é outra alusão ao alimento que Jesus se tornará para dar vida à humanidade através da Eucaristia. Na visita dos Magos do Oriente estão presentes os sinais da condição salvífica de Jesus, o ouro (realeza), incenso (sacerdócio) e mirra (sacrifício), esta ultima uma clara alusão a paixão e morte de Cristo (Mt 2, 11). O reconhecimento da realeza e divindade de Jesus pelos Magos do Oriente (Mt 2,1) está presente nos eventos posteriores, basta lembrar o reconhecimento da filiação divina de Jesus por parte dos pagãos e gentios, em especial do centurião que exclama diante da cruz “verdadeiramente esse homem era o Filho de Deus” (Mc 15, 39). A perseguição por Herodes está relacionada ao incomodo e ameaça que Jesus representará para os poderes constituídos em Jerusalém (chefes judeus e romanos), a matança dos inocentes está relacionada ao episodio do nascimento de Moisés (Mt 2,16). Maria que está perplexa diante de tais eventos permanece em seu silencio meditativo até o momento mais elevado que se encontra na Paixão (Lc 2, 19). 
    Neste sentido, podemos rastrear sinais pascais dos eventos presentes nas narrativas natalinas, mostrando assim que a verdadeira riqueza dessas narrativas sublimes se encontra naquele que foi o maior sinal do amor e da presença de Deus entre nós (o Emanuel, Deus conosco), a entrega de Jesus na Paixão da Cruz e sua vitoria na ressurreição.