16 de abril de 2013

Torcidas ‘organizadas’ x Estado desorganizado


O que estamos vendo nesses últimos meses é digno de nota, no que diz respeito à questão do futebol brasileiro. Já não bastasse os cartolas, os conchavos e a multimilionária industria do futebol nacional e internacional, bem como a copa que se aproxima, agora um novo tópico relacionado a isso vem a tona, a violência das torcidas ‘organizadas’.
Dizer que os torcedores são vândalos ou bandidos travestidos de torcedores, não resolve o problema e, na verdade, põe pra debaixo do tapete a verdadeira questão. Quem são esses novos gladiadores que não estão mais no interior do coliseu (arena de luta), mas do lado de fora? Qual a razão de sua revolta? O que escondem tanta ânsia de violência?
As chamadas torcidas organizadas (grosso modo) são agremiações que tem como meta a organização dos torcedores e a articulação interna de seus interesses, mas o que estamos vendo é a transformação desta instituição em uma verdadeira caixa de ressonância de outros problemas sociais que só então passam a ter relevância, uma vez que ferem os interesses da grande indústria do futebol e da copa. O que estamos presenciando todo dia não é apenas a invasão de vândalos no interior das torcidas organizadas, como se apregoa nas mídias, mas o reflexo da fragilidade de nossa sociedade e do Estado, de dar conta de conflitos internos que surgem em diversos âmbitos, seja na segurança publica, no transporte, e inclusive no esporte.
As formas de controle usadas pelo Estado se mostram ineficientes para diminuir o impacto de sua fúria. A insatisfação de toda uma sociedade se manifesta não apenas em passeatas e greves, mesmo nesse encontro entre torcidas rivais vemos a violência na sua forma mais confusa, pois como entender que aqueles que vão a uma partida de futebol precisem se digladiar ao fim do jogo? Antes de tudo deve-se ter em mente que o esporte é nada mais que uma virtualização da violência, a velha historia do ‘jogo limpo’ (‘fair play’) é uma maneira indireta de dizer que o esporte promove violência, por isso se exige o tal ‘jogo limpo’, os times ou seleções encarnam todas as expectativas de uma guerra, aqui as nações são representadas pela seleção que vai ao campo de guerra derrotar o ‘inimigo’. As torcidas se tornaram o espaço onde essa ‘guerra virtual’ se realiza efetivamente, embora o esporte precise seguir as regras. Todo o contingente de frustração social, ódio pelo diferente e pelo outro, encontra agora uma nova válvula de escape, as brigas entre torcidas rivais, não é apenas o que aparece imediatamente aos olhos, mas todo o conjunto de fatores não evidentes, mesmo que inconscientes.
Esperar que uma copa do mundo ou uma partida de futebol seja o espaço de ‘paz e amor’, de pura inocência esportiva é não entender bem a regra do jogo. O que acontece nos estádios e fora dele é reflexo de toda nossa sociedade, um dado que devia ser levado em conta antes de apenas reprimido. Nosso vandalismo de cada dia é escondido da grande massa de expectadores, mas não é menos letal, porque sutil.

27 de janeiro de 2013

As Igrejas da Prosperidade

A Teologia da Prosperidade é o nome dado a um movimento neopentecostal que tem como meta principal colocar a prosperidade como meta do cristão e resultado das bençãos dadas por Deus como sinal de uma aliança com ele. Os grandes exemplos de igrejas seguidoras desta forma de teologia são a Igreja Universal do Reino de Deus, a Igreja Internacional da Graça de Deus, a Igreja Mundial do Poder de Deus, Renascer em Cristo, entre outras.
Esta linha de pensamento teológico é aparentemente recente, teria surgido com o neopentecostalismo (fins do século XX), mas finca suas raízes nas origens do protestantismo, em especial com Lutero e Calvino (Séc.XVI). Com Lutero há uma ruptura não apenas em relação a doutrina e liturgia católica, mas também em relação a concepção de trabalho, que na Idade Media era visto como sacrificio e castigo (a origem da palavra trabalho em latim é tripalium, nome de um intrumento de tortura), passando agora a ser interpretado como 'vocação' (Beruf, em alemão tanto significa trabalho como vocação), ou seja, em seu trabalho, em sua profissão, o homem é chamado por Deus para contribuir com seu Reino, uma especie de releitura da parábola dos talentos. João Calvino por sua vez, destaca em sua obra Institutas, a questão da predestinação, ou seja, Deus teria escolhido de antemão aqueles que serão salvos e os que se danarão no fogo eterno, para os burgueses calvinistas, a prosperidade financeira é o sinal da eleição divina que cumula seus seguidores de bens materiais. Max Weber (sociólogo alemão, séc.XIX-XX), em sua obra A Ética protestante e o espirito do capitalismo, desvenda de forma clara como a concepção protestante de trabalho unida ao ascetismo e a parcimonia dos fieis burgueses levou necessariamente ao desenvolvimento do sistema capitalista na Europa e na América, esta ultima como grande reduto dos puritanos ingleses que tem na economia e no empreededorismo uma marca, exemplo disso foi o inventor americano Benjamin Franklin que criou a frase "tempo é dinheiro".
As igrejas que hoje seguem esta linha de pensamento funcionam como agências que levam os fieis ao empreedimento e a busca de riqueza, como forma de demonstrar que são agraciados por Deus, muitas vezes como um desafio, onde Deus é representado como 'o dono de todo ouro e prata' e que pela sua propria palavra sagrada seria o responsável em atender as demandas financeiras de seus fieis. A fé e o sacrificio pecuniario tornam-se a moeda corrente que obriga Deus a distribuir bens como recompensa. As grandes campanhas realizadas por estas igrejas tem como foco principal a garantia de resultado, de sucesso, de prosperidade, onde os bens materias tem a prioridade. Muitas vezes argumenta-se que o fiel como filho de Deus é indigno de viver na miséria, mas ao invés de apresentar as reais causas da miséria, isto é, a acumulação de riqueza e a má distribuição de renda, coloca como causa desta miséria algo sobrenatural, como possessão demoníaca, maldição familiar e até mesmo, a falta de fé (?). Esta prática é perniciosa por transformar a riqueza no sumo bem do cristão, sendo contrária mesmo ao Evangelho que diz "não levem bolsa nem alforge" (Lc 9,3), ou "o amor do dinheiro é a causa dos males" (1 Tim 6,10), ou ainda "não se pode servir a dois senhores, a Deus ou ao dinheiro (Mamom)", ou finalmente o conselho de Jesus ao jovem rico "se queres ser perfeito, vai vende teus bens e dá aos pobres, depois segue-me" (Lc 18,18-23). Tal teologia da prosperidade não admite que o cristão possa sofrer ou ser pobre, ser pobre é interpretado como uma maldição, ou seja, o contrário do que diz o Cristo que "o reino de Deus pertence aos pobres", o proprio Cristo foi ironicamente vendido por trinta moedas de prata (Mt 26,15).
É óbvio que esta linha de pensamento se coaduna perfeitamente não só para a sociedade tardo-capitalista em que vivemos, mas também se enquadra ao tipo de fiel que esta sociedade criou, o fiel egocêntrico, hedonista, individualista, imediatista, que vê a igreja como clube social ou shopping da fé, onde se paga para assistir um show ou espetáculo de curas e milagres. Este fiel não tem ilusões em relação a transformar a sociedade, na verdade sua ideologia é a de que deve-se 'converter' outros ao mercado da fé, pois só assim os males da miséria e da pobreza acabarão. Para ele, todos tem o direito de ser felizes e ricos, mas apenas os verdadeiros fieis é que se enquadram nesta categoria.
O dízimo, ao invés de ser uma forma de suprir as necessidades da comunidade, isto é, uma forma de redistribuição social da riqueza, torna-se um instrumento de lucro torpe (1 Tim 6,5). No mercado da fé há espaço para diversas igrejas, principalmente para aquelas que sabem usar o marketing e a mídia, transformando pessoas infelizes e depressivas em verdadeiros consumidores para a glória do capital!

16 de janeiro de 2013

Jonas, um profeta relutante


Profeta (em hebraico, nabi) é aquele que anuncia e proclama a Palavra e a Vontade de Deus; em Israel Moisés é considerado o grande profeta e modelo de todos, mas ele mesmo aponta para um profeta maior, Jesus Cristo, o novo Moisés. Na Bíblia (Antigo Testamento) são citados grandes profetas além de Moisés, tais como Elias, Eliseu, Natan, além dos profetas chamados maiores, e os doze profetas menores. A função dos profetas é denunciar a injustiça e apontar os caminhos do direito e da justiça como vontade de Deus.
Jonas, filho de Amati (Jn 1, 1), é um dos doze profetas menores, a obra que tem seu nome por titulo é importante e singular entre os demais profetas, e até Jesus a cita (Mt 12,38-42; Mc 8,11-12; Lc 11, 29-32) ao se referir ao sinal de Jonas, que ficou 03 dias na barriga de um peixe, usando-a como metáfora da sua ressurreição. O livro de Jonas foi escrito no final do período persa (por volta de 538-333 a.C.), não é um livro histórico, mas uma novela com conteúdo sapiencial, pois ele não pretende falar sobre algo que aconteceu, mas dar um ensinamento sobre a universalidade da salvação de Javé, em oposição à visão exclusivista e nacionalista judaica do período pós-exílio, a qual não aceitava que os povos estrangeiros pudessem ser salvos e perdoados por Javé, pois considerava que apenas o povo de Israel era o povo eleito, temos como paradigma disso os escritos de Esdras (398 a.C) e Neemias (450-350 a.C).
Jonas é enviado por Javé para pregar o arrependimento e a conversão na grande cidade de Nínive. Nínive é a capital da Assíria, grande império que predominou no século VIII a.C. e que representava para os judeus o paganismo, a violência e a injustiça. Jonas deve ir à grande cidade e proclamar o arrependimento aos ninivitas, que prontamente se convertem, o próprio rei proclama um decreto de conversão. Jonas, porém, revolta-se porque Javé desiste de destruir a cidade, numa atitude individualista e autoritária. Este é o grande desafio da Igreja hoje, ir às grandes cidades, aos centros urbanos, as metrópoles, a mensagem do Evangelho deve ser proclamada nos grandes espaços, nas cidades, metrópoles, praças, meios de comunicação. Quantas dificuldades nos aguardam, mas ao mesmo tempo, quantas esperanças enchem o nosso coração de entusiasmo! Vivemos em cidades grandes, cheias de problemas, mal administradas, sujas, poluídas, doentes, onde impera a violência, as drogas, o descaso pela vida, onde há muitas tentações, muitos falsos caminhos que iludem as pessoas.
É para estas grandes cidades, das quais queremos muitas vezes fugir, como o profeta Jonas, que Deus nos envia para convidar a conversão e proclamar o perdão dos pecados e a salvação.

30 de outubro de 2012

São Jorge da Capadócia



Uma falsa polêmica foi criada recentemente por conta da novela global “Salve Jorge”, o personagem cujo nome dá o titulo a novela, Jorge da Capadócia (sec.IV) tem sido confundido por grupos pseudo-evangélicos com o orixá Ogum do Candomblé. Pretendemos esclarecer o mal entendido, sem descaracterizar a imagem do soldado cristão da Capadócia, nem estigmatizar o Orixá africano que foi sincretizado no período da escravidão no Brasil.
Jorge da Capadócia (Turquia, sec.IV) foi soldado romano do exercito de Diocleciano, assim como São Sebastião de Narbona, ambos foram descobertos como cristãos e perseguidos e torturados pelo imperador romano que não tolerava o Cristianismo. Em 303, Diocleciano havia publicado um decreto que obrigava a todo soldado oferecer sacrifício aos deuses romanos, Jorge foi até o imperador defender sua causa enquanto cristão, o imperador tentou convencê-lo de todas as formas, oferecendo presentes e, depois o torturando, até mandar degolá-lo em 23 de abril de 303. Há varias cidades no mundo que o proclamam padroeiro e tem igrejas a ele dedicadas na Inglaterra, Portugal, Lituânia e até no Rio de Janeiro. A lenda que liga São Jorge a defesa de uma donzela contra um dragão é derivada de baladas medievais de origem inglesa, sem nenhum fundo de verdade, havia duas versões que supunha a lenda de um dragão que aterrorizava certa região e demandava o sacrifício de uma virgem para satisfazer suas vontades. Da mesma forma não tem fundamento a ideia de sua imagem refletida na lua, que não passa de uma crendice brasileira.
A Religião Africana, por sua vez, é bastante diferente do Cristianismo. Há varias nações africanas com costumes distintos, além de mitos e crenças diferentes entre si. Os povos africanos não têm livros sagrados, nem sacerdotes especializados ou templos. Sua religiosidade está centrada nos mitos, ritos e sacrifícios de animais. Nesse sentido, não há dogmatismo ou ortodoxia. O Candomblé brasileiro é uma crença trazida pelos Iorubás, os quais, além de um ser supremo, Olorum, acreditavam em seres intermediários, os Orixás, entre os quais fizemos referencia a Ogum. Ogum é o orixá ferreiro, que forjava suas armas para caça, agricultura e a guerra, ele é considerado um dos primeiros orixás a descer dos céus a terra. É filho de Oduduwa e Yembo, irmão de Xangô e Oxossi, dono dos caminhos e encruzilhadas como seu irmão Exu. Os negros escravizados no Brasil não eram necessariamente devotos de São Jorge, pois camuflavam sua verdadeira crença usando a figura do santo católico. Como podemos ver, não há nenhuma relação entre a figura de São Jorge com o orixá Ogum, o sincretismo é puramente acidental, uma vez que foi uma forma dos africanos escravizados no Brasil salvaguardar suas crenças e sua religião, identificando o orixá dos metais com o santo.
Os grupos pseudo-evangélicos, que citamos anteriormente, na verdade são grupos fundamentalistas carentes de qualquer formação religiosa, pois usam textos da Bíblia indiscriminadamente e fora de contexto e costumam atacar qualquer forma de religião que não compartilhe de suas falsas conclusões. Geralmente são dirigidas por ‘gurus carismáticos’ que aparentam conhecer as ‘artimanhas diabólicas’ e em tudo aventam teorias conspiratórias para justificar sua paranoia e alimentar seus bolsos. 

25 de setembro de 2012

O ocaso do futebol


A Copa de 2014 será um evento que consagrará definitivamente na história do Brasil a função ideológica e política do futebol. O futebol desde suas origens tem se apresentado como esporte marginal, já na Idade Média, na Inglaterra era muito mal visto. Em nosso país não foi diferente, no século XIX o futuro ‘esporte das massas’ começou como uma brincadeira sem nobreza exercida por pessoas das classes economicamente inferiores. Na década de 70, o esporte subalterno mexeu até mesmo com os rigores da ditadura, e com a copa do México em 1970 consagra-se como propaganda de um país que vivia suposto ‘milagre’ econômico, apesar da repressão e dos homicídios.
Pouco mais de 30 anos depois vemos o futebol bater todos os recordes, tornou-se massificado, assimilado pela lógica do capital é uma força ideológica que rende fortunas. A FIFA tem mais países afiliados que a própria ONU, os jogos entre países historicamente rivais encerram em si uma simbólica guerreira que desvia para os gramados todos os grandes problemas da nação. No Brasil a coisa não é diferente, nosso país se orgulha de nunca ter ficado de fora de uma copa do mundo, de ser hexa campeão, de ter o futebol arte, de exportar craques para todo o planeta, muito embora não tenhamos resolvido as questões mais básicas de um país em desenvolvimento, o qual espera de uma copa do mundo a solução de nossos problemas sociais. Ironicamente não somos mais os ‘donos da bola’, ela agora corre em outro rumo, são nos gramados da Europa onde nossos meninos prodígios desfilam como modelos e manequins.
Quando estão aliados a politicagem, a corrupção e o futebol tudo se torna ainda mais desastroso. O futebol ‘arte’ perdeu seu pudor e virou meio de enriquecimento de muitos cartolas que controlam os horários dos jogos, as transmissões, entre outras coisas. Os politiqueiros de plantão descobriram que o filão do futebol é uma forma muito cômoda de assegurar um rendimento extra, do tipo caixa dois, já não bastasse as inúmeras modalidade de falcatruas que conhecemos.
A Copa de 2014 será mais do que a Copa do Brasil, será a Copa do jeitinho brasileiro, com direito a dribles na fiscalização, gols de placa de impunidade, principalmente em um país onde se investe mais em um único esporte, sem justificativa clara, deixando de lado uma imensa maioria de outras modalidades tão importantes, e mais ainda onde se abandona ao descaso a própria educação. Parece que estamos vivendo o fim do futebol de verdade. Façamos também uma Copa para a Educação antes que seja tarde demais!