18 de novembro de 2023

A FUGA PARA O EGITO


Uma familia palestina precisa se refugiar às pressas no Egito, pois o rei dos judeus ordena a perseguição e o assassinato das crianças (Mateus 2, 13-23). 
Milhares de crianças são mortas cruelmente por ordem de "Israel", cujos soldados massacram sem piedade as familias que não abandonaram seus lares, porque para o rei judeu aquele povo miserável é uma ameaça aos interesses dos poderosos do mundo...

#FreePalestine 🇸🇩
#FugaParaEgito

21 de agosto de 2019

Raul Seixas, 30 anos de saudades (21 de Agosto de 1989-2019)


30 anos da viagem astral de Raul Santos Seixas (21 de Agosto de 1989). O Raulzito foi um fenômeno da cultura pop brasileira, um misto de cantor e compositor popular, mas acima de tudo um pensador e crítico de nossa cultura, capaz de criar uma reviravolta no padrão estabelecido pela MPB até então.
Raul Seixas (1945-1989) foi um espirito inquieto, estudioso de Filosofia e Esoterismo, amante do Rock n’ Roll americano e das nossas raízes culturais nordestinas, compositor inventivo e irreverente, cujo sarcasmo e bom humor tornaram-no uma figura ímpar na cena rockeira do final do século XX. Antes de se tornar um artista de projeção nacional, Raul havia trabalhado como produtor musical da CBS, sendo responsável por diversos sucessos no período da jovem guarda (cerca de 22 canções). As décadas de 70 e 80 foram o auge de sua carreira, alcançando um lugar único no rol da fama e das paradas musicais, emplacando sucessos como “Let me sing, Let me sing” (1972), “Metamorfose Ambulante” e “Outo de Tolo”(1973), “Gitã” (1974) e “Maluco Beleza”(1977). Vale lembrar que em seus 26 anos de carreira (1963-1989), ele compôs 17 álbuns que contemplam diversos estilos musicais que vão desde a música Brega, Bolero, Baião, Rock clássico, Blues e até Tango!
30 anos depois, fica o questionamento: Qual o legado do Raulzito para a cultura popular brasileira? Podemos dizer que, para além da produção musical, dos álbuns premiados e das releituras por parte de diversos artistas dos mais variados gêneros, o que mais devemos destacar nestes últimos anos após sua ausência física é a produção cultural que revisita sua obra e encontra nesta uma fonte inesgotável de inspiração para reflexões em diversos campos do saber. Hoje, o Raulzito é objeto de pesquisas em História, na Sociologia, na Literatura e na Filosofia, que resultaram em dezenas de dissertações de Mestrado e teses de Doutorado, além de biografias, publicações em Prosa e Poesia, em Literatura de Cordel, na produção audiovisual (documentários) e até nos Quadrinhos.
Raul Seixas é um patrimônio nacional de profunda relevância cultural que sempre se renova, trazendo novas contribuições para pensar nossa identidade que tem a marca da diversidade e da pluralidade. Viva Rauzlito!    

1 de abril de 2018

Folclore em torno do apóstolo São Tomé



Uma das figuras mais misteriosas e intrigantes do Novo Testamento é Tomé, o Dídimo (gêmeo), seu nome percorreu o mundo, partindo da Palestina, atravessando o Oriente e chegando até a América. Falaremos neste ensaio sobre as várias versões e lendas a respeito de Tomé.
Segundo o texto bíblico: “Um dos doze, Tomé, o dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Os outros discípulos, então lhe disseram: Vimos o Senhor! Mas ele lhes disse: ‘Se não vir em suas mãos o lugar dos cravos e se não puser o meu dedo no lugar dos cravos e minha mão no seu lado, não crerei.’ Oito dias depois achavam-se os discípulos, de novo, dentro de casa, e também Tomé com eles. Veio Jesus,estando as portas fechadas,pôs-se no meio deles e disse: ‘A paz esteja convosco’. Disse depois a Tomé: ‘Põe o teu dedo aqui e vê minhas mãos! Estende tua mão e põe-na no meu lado e não sejas incrédulo,mas crê!’ Respondeu-lhe Tomé: ‘Meu Senhor e meu Deus’. Jesus lhe disse: ‘Porque viste, creste,felizes os que não viram e creram” (João 20, 24-29). O evangelista quis representar o incrédulo ou o que só crê no que vê e toca, alguém que não tem convicção espiritual, mas, se, por um lado é um possível descrente, por outro lado é uma pessoa que não se contenta com boatos e comentários, porém Jesus lhe ensina a crer em algo que ultrapassa os sentidos,como dirá Paulo: “A fé é uma posse antecipada do que se espera um meio de demonstrar as realidades que não se vêem. Foi por ela que os antigos deram seu testemunho” (Hebreus 11,1-2).
Segundo fontes encontradas no Egito em 1946, sob nome Nag Hammadi, há um manuscrito, provavelmente dos séculos II e III de nossa era, denominado Evangelho de Tomé, um escrito apócrifo gnóstico, onde se narra palavras de Jesus a Tomé, o gêmeo: “Eis as palavras secretas ditas por Jesus, o Vivente, escritas por Judas Tomé, o gêmeo” (O Evangelho de Tomé). A forma do Evangelho de Tomé tem como característica principal ditos de Jesus, que revelam uma tradição de coleções de ditos e/ou feitos do mestre colocados sem uma sequência orgânica, em seu conteúdo trata de temas caros aos gnósticos, onde Jesus representa o homem perfeito e seus ditos misteriosos encontram sua interpretação dentro da simbologia da escola gnóstica, muitos dos ditos são variações daqueles dos evangelhos canônicos. Eis alguns: “1. E ele disse: Aquele que encontrar a interpretação destas palavras não provará a morte”,“42. Jesus disse: Sede passantes”,“112. Jesus disse: Infeliz da carne que depende da alma; infeliz da alma que depende da carne” (O Evangelho de Tomé).
Mas isso não é tudo no que diz respeito a nossa curiosa figura, restam ainda as lendas e relatos sobre a passagem de Tomé pelo Oriente (Índia) e pela América (México e Brasil), pois segundo se sabe ele foi o ‘apóstolo das Índias’. Existem alguns relatos de viajantes como Marco Pólo e Francisco Xavier, que atravessaram a Europa rumo à China e Japão e descrevem vários costumes dos povos asiáticos, do primeiro podemos ler em sua narrativa das viagens chamado ‘Milione’ (O Livro das maravilhas) algo sobre Tomé: “O corpo de São Tomé, o apóstolo, encontra-se na província de Maabar (...) Os sarracenos desta região são muito devotos de São Tomé, porque acham que ele foi um grande profeta sarraceno, razão porque o chamam de ‘Varria’, isto é, Santo.(...) Este santo cura todos os leprosos cristãos. Eis como ele morreu, (...). São Tomé estava orando numa ermida, num bosque, cercado de pavões (...). Enquanto rezava, um caçador da casta dos ghavi, que andava caçando pavões atirou uma flecha para caçar uma daquelas aves, e uma outra nas costas de São Tomé, que ele não vira. Ferido desse modo o santo continuou orando docemente, até exalar o último suspiro e entregar sua alma a Deus. Antes de ter se retirado para a ermida desse bosque, ele já havia operado umas conversões de indianos ao cristianismo.” (Pólo, Marco. Il Milione).
Como vemos, Tomé gozava de grande estima mesmo entre os pagãos orientais e como no período das descobertas a América era confundida com o Oriente era lógico crer que se encontrariam indícios do que Marco Pólo narrou, o qual tinha muito prestígio entre os europeus, pois estes não conheciam muito ou mesmo nada do Oriente. A idéia de que Tomé estivera nas Índias logo se fortaleceu quando do contato entre europeus e indígenas, o que nos atestam os relatos dos Jesuítas. Há analogias de Tomé com o famoso deus Quetzalcoatl (a serpente emplumada) do México, que significa ‘gêmeo’ como o Tomé bíblico, e esse deus Tolteca tinha uma ‘cruz’ em seu chapéu de ponta (por ser o deus dos quatro pontos cardeais). Segundo Enrique Dussel, filósofo e historiador argentino, esta cruz e sua relação com o grande dilúvio e ‘tantos outros signos’, fez com que o Pe Diego Duran pensasse que o sacerdote e rei tolteca – e depois deus – era nada menos que o apóstolo Tomé, que da Palestina teria ido á Índia e dali teria vindo ao México.
Também no Brasil encontramos relatos sobre a lenda de Tomé (Sumé ou Zomé) entre nossos índios, descrita pelo célebre Câmara Cascudo, no ‘Dicionário do Folclore Brasileiro’: “Sumé personagem misteriosa, homem branco que, antes do descobrimento, apareceu entre os indígenas, ensinando-lhes o cultivo da terra e regras morais. Repelido, abandonou a região, caminhando sobre as águas do mar. “Dizem eles que São Tomé, a quem eles chamam Zomé passou por aqui, isto lhes ficou por dito por seus antepassados e que suas pisadas estão assinaladas junto de um rio; as que eu fui ver por mais certeza de verdade e vi com os próprios olhos, quatro pisadas mui grandes com seus dedos,as quais algumas cobre o rio,quando enche; dizem também que quando deixou estas pisadas,ia fugindo dos índios que o queriam frechar, e chegando ali se lhe abrira o rio e passara por meio dele à outra parte,sem se molhar e dali foi para a Índia. Assim mesmo contam que, quando o queriam frechar os índios, as frechas se tornavam para eles, e os matos lhe faziam caminho por onde passasse.” (Manuel da Nóbrega, Cartas do Brasil, 101, a carta é de 1549).
Continua Câmara Cascudo: “Também é tradição antiga entre eles que veio o bem-aventurado apóstolo São Tomé a esta Bahia, e lhes deu a planta de Mandioca e das bananas de São Tomé; e eles, em paga deste benefício e de lhes ensinar que adorassem e servissem a Deus e não ao demônio,que não tivessem senão uma mulher e não comessem carne humana,o quiseram matar e comer, seguindo com efeito até uma praia onde o santo se passou,de uma passada,a ilha de Maré, distância de meia légua, e daí não sabem por onde. Devia de ser indo para a índia,que quem tais passadas bem podia correr todas estas terras, e quem as havia de correr também convinha que desse tais passadas.” (Frei Vicente de Salvador, Historia do Brasil (1627), 103). Também o Pe Antonio Vieira nos dá algumas indicações sobre a lenda a respeito do apóstolo Tomé no Brasil em seus “Sermões”.
              Concluindo, podemos perceber como determinadas figuras míticas e lendárias como a de Tomé, o apóstolo, podem ter uma continuidade na cultura popular, atravessando o tempo e o espaço, servindo de arquétipo do homem santo, do grande civilizador e ainda do missionário além-fronteiras. 


Referências
Bíblia de Jerusalém
Marco Polo, O livro das Maravilhas.
Cascudo, Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro
Padre Antonio Vieira. Sermões
VVAA. O Evangelho de Tomé. in: Apócrifos da Bíblia.

22 de dezembro de 2014

O significado pascal do Natal

    
  O Natal do Senhor é uma das mais belas festas do calendário litúrgico do Cristianismo, muito embora poucos saibam que ela não é a principal, a celebração da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus (a Páscoa) é o eixo da liturgia e doutrina cristã (Catecismo, 2ª parte, 1169). Tentaremos apresentar brevemente alguns temas do Natal a partir da chave de leitura pascal, ou seja, entender o significado pascal do Natal, pois os evangelhos foram escritos após a experiência da ressurreição de Jesus e devem ser lidos sob essa chave de leitura.
   As narrativas do nascimento de Jesus se encontram apenas nos evangelhos escritos por Mateus e Lucas (Mt cap. 1-2, Lc 1-2), enquanto os evangelhos segundo Marcos (considerado o primeiro a ser escrito) e o de João (que não é sinótico), iniciam com o encontro de Jesus com João Batista (Mc 1; João 1), por quem foi batizado para cumprir toda a justiça. Originalmente a narrativa dos evangelhos iniciava no Batismo de Jesus, seguia sua missão (palavras e ações) e encerrava com sua Paixão. As narrativas do Natal são, pois, escritas segundo a experiência pascal e por sua luz devem ser lidas. A estrutura da narrativa natalina com variações em Mateus e Lucas se constitui de uma forma básica: genealogia, anunciação, gravidez de Maria, encontro com Isabel, nascimento de Jesus, encontro com os Magos, perseguição de Herodes, fuga para o Egito, apresentação de Jesus no templo. 
    As genealogias traçam a descendência de Jesus desde Adão, passando por Abraão e culmina em Davi, o rei ungido, nascendo em Belém da Judéia (Mt 1,1; Lc 2, 23-38)). O nome Belém (hebraico Beit-lehem) significa a ‘casa do pão’ e nos faz lembrar o anuncio da paixão de Jesus que se apresenta na Ceia pascal como “o pão descido do céu”, o pão que será partido, partilhado por todos, cuja carne e sangue são sinais de amor e entrega por nossa salvação (João 6, 48-58). O nascimento numa manjedoura (Lc 2, 16) é outra alusão ao alimento que Jesus se tornará para dar vida à humanidade através da Eucaristia. Na visita dos Magos do Oriente estão presentes os sinais da condição salvífica de Jesus, o ouro (realeza), incenso (sacerdócio) e mirra (sacrifício), esta ultima uma clara alusão a paixão e morte de Cristo (Mt 2, 11). O reconhecimento da realeza e divindade de Jesus pelos Magos do Oriente (Mt 2,1) está presente nos eventos posteriores, basta lembrar o reconhecimento da filiação divina de Jesus por parte dos pagãos e gentios, em especial do centurião que exclama diante da cruz “verdadeiramente esse homem era o Filho de Deus” (Mc 15, 39). A perseguição por Herodes está relacionada ao incomodo e ameaça que Jesus representará para os poderes constituídos em Jerusalém (chefes judeus e romanos), a matança dos inocentes está relacionada ao episodio do nascimento de Moisés (Mt 2,16). Maria que está perplexa diante de tais eventos permanece em seu silencio meditativo até o momento mais elevado que se encontra na Paixão (Lc 2, 19). 
    Neste sentido, podemos rastrear sinais pascais dos eventos presentes nas narrativas natalinas, mostrando assim que a verdadeira riqueza dessas narrativas sublimes se encontra naquele que foi o maior sinal do amor e da presença de Deus entre nós (o Emanuel, Deus conosco), a entrega de Jesus na Paixão da Cruz e sua vitoria na ressurreição.  

24 de janeiro de 2014

Maria de Araújo, a beata do milagre


O sertão nordestino é um lugar místico, capaz de inspirar verdadeiras vocações religiosas. Um exemplo da fertilidade espiritual dessa terra árida e desértica semelhante à Palestina, podemos encontrar nas figuras dos beatos e beatas (como José Lourenço e Maria de Araujo), dos profetas populares e místicos (como Antonio Conselheiro) e dos apóstolos do sertão (como Padre Ibiapina e Padre Cícero). Entre as figuras e personagens mais significativas de nossa religiosidade devemos lembrar aqueles que surgem à margem da sociedade e da religião estabelecidas, os pobres, os analfabetos, os negros e as mulheres. Neste sentido, destaca-se a figura de Maria Madalena do Espírito Santo de Araujo (1863-1914), a ‘beata do milagre’ de Juazeiro do Norte, que sofreu com a exclusão, sendo considerada embusteira e mentirosa, porque o famoso ‘milagre eucarístico’ acontecido no final do século XIX na cidade de Juazeiro do Norte tinha como personagem central uma mulher feia, pobre, negra e analfabeta.
Esta mulher desde muito cedo apresentou tendências místicas, voltada para as práticas ascéticas da oração, jejum, penitência, além de ter visões, como o ‘casamento espiritual’ com Cristo quando era ainda criança, receber os estigmas de Cristo, ver Maria e os Santos, o que a levou a dedicar-se a uma vocação religiosa que a conduziu ao sofrimento e ao esquecimento, ao fim de sua vida seu tumulo foi violado e seus restos mortais foram perdidos. Mesmo o Padre Cícero Romão Batista, considerado santo pelo povo devoto do nordestino e o principal responsável pelos fatos milagrosos, reconhecia as qualidades religiosas e espirituais de Maria de Araujo. O nome desta mulher ‘Maria Madalena do Espírito Santo de Araujo’ traz a marca da religiosidade, ‘Maria’, como as duas principais Marias da Bíblia, Maria de Nazaré, a mãe do salvador, e Maria Madalena, a pecadora redimida, e por fim ‘do Espírito Santo’ (em hebraico ‘espírito’ é nome feminino, ‘ruach hakodesh’), lembrando assim a presença do espírito como sopro que dá vida, que anima e dá coragem, em especial aos perseguidos, para suportar as injustiças desse mundo.
Neste ano de 2014, lembramos o centenário de sua morte (17 de janeiro), embora sua memória tenha sido apagada da historia e da religião, permanece seu exemplo de vida e dedicação espiritual que só tem precedentes na vida dos santos e mártires cristãos, os quais sempre foram objeto de perseguição e morte por parte dos poderes políticos e religiosos das diversas épocas. A Igreja oficial se via diante de um dilema, pois se de um lado era necessário resguardar a fé dos ataques dos protestantes, dos positivistas e dos maçons, todos descrentes em relação à veracidade dos fatos da religião católica, por outro lado era necessário evitar o avanço descontrolado do cristianismo popular e laico, eivado de milenarismos e misticismos, que poderiam por em cheque a autoridade do clero e do magistério, bem como dos dogmas teológicos aceitos pelos intelectuais da Igreja, por fim, havia a questão dos milagres, das romarias e da renovação da fé proporcionada pelas devoções do catolicismo sertanejo. As questões se acumulavam: poderia Cristo deixar a Europa para fazer milagres numa cidade perdida no interior do Nordeste? Poderia uma beata ignorante, mestiça e pobre ter se tornado uma mediadora dos sinais divinos, em oposição aos teólogos e o clero instituído pela Igreja de Cristo?

É notável observar que, apesar de ser uma igreja cujos membros em sua maioria são mulheres, que venera de forma toda especial Maria, a mãe do Salvador, que reconheça Maria Madalena como ‘apostola apostolorum’ (apóstola dos apóstolos) permaneça ainda uma igreja onde não há sacerdotisas, onde as mulheres ainda são vistas com suspeita (as ‘degredadas filhas de Eva’). Uma instituição hierarquizada de forma medieval que mantém arcaísmos que minam seu discurso sobre direitos humanos, conservando contradições que precisam ser superadas urgentemente. Só assim a Igreja ainda poderá assumir seu lugar como ‘mater et magistra’(mãe e mestra), títulos ironicamente femininos numa igreja tão masculina.

28 de julho de 2013

Paulo em Atenas, encontro da fé cristã com a filosofia

O discurso de Paulo em Atenas (Atos 17,16-34) é um dos primeiros textos em que se trata diretamente da relação entre gregos e cristãos. O discurso é emblemático, pois representa o primeiro encontro entre filosofia e fé cristã. Pretendemos de forma breve expor em que condições se deu este encontro e como ele serve de paradigma para compreender melhor a relação entre fé cristã e sabedoria grega.
Entre as missões de Paulo destacamos o encontro entre ele e os filósofos gregos na Praça de Atenas, o qual será paradigmático e decisivo em relação a estas duas culturas. Paulo foi um conhecedor da cultura clássica como podemos perceber em suas Cartas, onde cita autores e faz uso de esquemas de pensamento próprios da cultura helenística. Como exemplo disso, citemos a passagem em que o apostolo faz referencia a uma passagem da obra Fenômenos de Arato, poeta da Cilicia (sec.III a.C), sobre a descendência divina dos homens: “Pois somos também de sua raça” (Atos 17, 27-29), além de Cleanto, discípulo de Zenão (331-232 a.C.) em seu Hino a Zeus. Mesmo assim é de se notar as criticas de Paulo ‘a filosofia’ ou sabedoria humana (1 Cor 1, 17-31), que termina em querelas de palavras e tradições humanas.
Na Carta aos Colossenses (cap.2,8), Paulo diz: “Tomai cuidado para que ninguém vos escravize por vãs e enganosas especulações da filosofia, segundo a tradição dos homens, segundo os elementos do mundo, e não segundo o Cristo”. O uso do termo ‘filosofia’ em Colossenses não diz respeito ao que comumente se denomina filosofia, mas às seitas, heresias ou grupos ideológicos de então, o próprio texto da Carta nos permite entrever os sincretismos que se baseavam na adoração aos anjos e elementos da natureza, o que não corresponde a mentalidade filosófica dos primeiros filósofos. O discurso em Atenas se dá por volta do ano 50-52 d.C., no Areópago de Atenas, onde Paulo percebe o temor supersticioso (deisidaimonia) dos gregos, pois havia imagens para todas as divindades, incluindo uma dedicada ao “Deus desconhecido”. O texto de Atos começa assim: “Enquanto Paulo os esperava em Atenas seu espírito se inflamava dentro dele, ao ver cheia de ídolos a cidade. Disputava, por isso, na sinagoga, com os judeus e os adoradores de Deus; e na Ágora, a qualquer hora do dia, com os que a freqüentavam. Até mesmo alguns filósofos epicureus e estóicos o abordavam. E alguns diziam: ‘Que quer dizer esse palrador?’ E outros: ‘Parece um pregador de divindades estrangeiras’. Isto, porque ele anunciava Jesus e a ressurreição” (cap.17,16-18). É partindo desse “Deus desconhecido” que Paulo resolve desenvolver seu discurso, conclamando os gregos a conversão ao Deus único criador de todas as coisas. O final do discurso apresenta o descrédito dos gregos em relação à ressurreição que, como disse Jesus, é o grande sinal dos cristãos, o sinal de Jonas (Lc 11,29-32). O anuncio da ressurreição soa estranho para os gregos que ou acreditavam na transmigração como os órficos, pitagóricos e platônicos, ou não acreditavam em vida posterior a morte, como pensavam os filósofos atomistas e epicuristas. A crença na ressurreição dos mortos é uma crença judaica e cristã, muito embora os judeus saduceus não acreditassem nela, pois sua leitura literal da Torah não atinava para isso. Já os pagãos não acreditavam nessa possibilidade ou nem mesmo imaginavam-na.
Pelo que podemos perceber a doutrina judaico-cristã da ressurreição é escândalo para os gregos, que mesmo curiosos ao discurso de Paulo, acabam por ignorar esta doutrina que depende inteiramente da fé, não sendo objeto de investigação racional, nem cientifica, mas que abre uma nova perspectiva para a relação entre o Deus e o homem, na medida em que ao partilharmos da redenção por meio de Cristo somos alçados a condição de filhos de Deus e partícipes de sua natureza.


29 de junho de 2013

Raul Seixas e 'Os Números'


“Os números governam o mundo”. Esta frase sintetiza de modo admirável uma forma de saber que tem sido tão esquecida no mundo atual. No mundo antigo o filosofo grego Pitágoras (séc.VI a.C.) criou uma escola em que os números eram vistos como a ‘arkhe’ (o principio) da realidade, ‘tudo é numero’ diziam os pitagóricos.
O cantor-compositor Raul Seixas escreveu a musica ‘os números’ para mostrar como os números estão presentes no nosso dia a dia, mas não são os números da economia ou da matemática financeira, o que ele queria revelar era uma forma de matemática mais importante, a matemática simbólica, não de quantidades, mas do aspecto qualitativo dos números. Essa forma de matemática simbólica muitas vezes é vulgarizada com o nome de numerologia. ‘Os números’ talvez seja uma das musicas mais simples e enigmática do Raulzito, pois na sua simplicidade aparente ela nos leva a uma reflexão filosófica do aspecto numérico da realidade.
A musica é um baião no bom estilo nordestino, ritmo contagiante que não deixa ninguém parado, numa cadencia irresistível. Nela Raulzito segue uma sequencia de números que parece aleatória, mesmo partindo do numero 1 (um), segue o 2 (dois), o 4 (quatro), o 7 (sete) e o 12 (doze). Nestes números simbólicos se descobre um mundo de relações que não são apenas de quantidade, mas de qualidade. Os antigos hebreus tinham um respeito profundo pelos números e os consideravam os arquétipos (modelos) da realidade, para isso criaram um método de interpretação dos números, a guematria, que faz parte da kaballah (tradição oral), nela cada numero tem seu significado, o qual pode ser comparado as idéias pitagoricas.

Na musica podemos fazer algumas relações, por exemplo, o numero 1 é a unidade, o principio de todas as coisas, a origem de tudo, Deus, o 2 é a separação, a divisão, o mal(?), e tudo que faz a diferença e que se opõe, o 4 é o equilíbrio, o ponto fixo, o que abrange todos os elementos, os pontos cardeais, o sete é a plenitude, o descanso, a realização e o ápice, e finalmente o 12, que tem significado especial para os hebreus, as doze tribos de Israel, os doze apóstolos, as doze estrelas do apocalipse e representa a multiplicação do 3 pelo 4. Enfim, nestes cinco números se revela o segredo universal, religioso e profundamente místico em que Raul Seixas quis mostrar de uma forma simples o que há por trás das aparências e das coincidências, ele que com doze anos já desconfiava da verdade absoluta.

16 de abril de 2013

Torcidas ‘organizadas’ x Estado desorganizado


O que estamos vendo nesses últimos meses é digno de nota, no que diz respeito à questão do futebol brasileiro. Já não bastasse os cartolas, os conchavos e a multimilionária industria do futebol nacional e internacional, bem como a copa que se aproxima, agora um novo tópico relacionado a isso vem a tona, a violência das torcidas ‘organizadas’.
Dizer que os torcedores são vândalos ou bandidos travestidos de torcedores, não resolve o problema e, na verdade, põe pra debaixo do tapete a verdadeira questão. Quem são esses novos gladiadores que não estão mais no interior do coliseu (arena de luta), mas do lado de fora? Qual a razão de sua revolta? O que escondem tanta ânsia de violência?
As chamadas torcidas organizadas (grosso modo) são agremiações que tem como meta a organização dos torcedores e a articulação interna de seus interesses, mas o que estamos vendo é a transformação desta instituição em uma verdadeira caixa de ressonância de outros problemas sociais que só então passam a ter relevância, uma vez que ferem os interesses da grande indústria do futebol e da copa. O que estamos presenciando todo dia não é apenas a invasão de vândalos no interior das torcidas organizadas, como se apregoa nas mídias, mas o reflexo da fragilidade de nossa sociedade e do Estado, de dar conta de conflitos internos que surgem em diversos âmbitos, seja na segurança publica, no transporte, e inclusive no esporte.
As formas de controle usadas pelo Estado se mostram ineficientes para diminuir o impacto de sua fúria. A insatisfação de toda uma sociedade se manifesta não apenas em passeatas e greves, mesmo nesse encontro entre torcidas rivais vemos a violência na sua forma mais confusa, pois como entender que aqueles que vão a uma partida de futebol precisem se digladiar ao fim do jogo? Antes de tudo deve-se ter em mente que o esporte é nada mais que uma virtualização da violência, a velha historia do ‘jogo limpo’ (‘fair play’) é uma maneira indireta de dizer que o esporte promove violência, por isso se exige o tal ‘jogo limpo’, os times ou seleções encarnam todas as expectativas de uma guerra, aqui as nações são representadas pela seleção que vai ao campo de guerra derrotar o ‘inimigo’. As torcidas se tornaram o espaço onde essa ‘guerra virtual’ se realiza efetivamente, embora o esporte precise seguir as regras. Todo o contingente de frustração social, ódio pelo diferente e pelo outro, encontra agora uma nova válvula de escape, as brigas entre torcidas rivais, não é apenas o que aparece imediatamente aos olhos, mas todo o conjunto de fatores não evidentes, mesmo que inconscientes.
Esperar que uma copa do mundo ou uma partida de futebol seja o espaço de ‘paz e amor’, de pura inocência esportiva é não entender bem a regra do jogo. O que acontece nos estádios e fora dele é reflexo de toda nossa sociedade, um dado que devia ser levado em conta antes de apenas reprimido. Nosso vandalismo de cada dia é escondido da grande massa de expectadores, mas não é menos letal, porque sutil.

27 de janeiro de 2013

As Igrejas da Prosperidade

A Teologia da Prosperidade é o nome dado a um movimento neopentecostal que tem como meta principal colocar a prosperidade como meta do cristão e resultado das bençãos dadas por Deus como sinal de uma aliança com ele. Os grandes exemplos de igrejas seguidoras desta forma de teologia são a Igreja Universal do Reino de Deus, a Igreja Internacional da Graça de Deus, a Igreja Mundial do Poder de Deus, Renascer em Cristo, entre outras.
Esta linha de pensamento teológico é aparentemente recente, teria surgido com o neopentecostalismo (fins do século XX), mas finca suas raízes nas origens do protestantismo, em especial com Lutero e Calvino (Séc.XVI). Com Lutero há uma ruptura não apenas em relação a doutrina e liturgia católica, mas também em relação a concepção de trabalho, que na Idade Media era visto como sacrificio e castigo (a origem da palavra trabalho em latim é tripalium, nome de um intrumento de tortura), passando agora a ser interpretado como 'vocação' (Beruf, em alemão tanto significa trabalho como vocação), ou seja, em seu trabalho, em sua profissão, o homem é chamado por Deus para contribuir com seu Reino, uma especie de releitura da parábola dos talentos. João Calvino por sua vez, destaca em sua obra Institutas, a questão da predestinação, ou seja, Deus teria escolhido de antemão aqueles que serão salvos e os que se danarão no fogo eterno, para os burgueses calvinistas, a prosperidade financeira é o sinal da eleição divina que cumula seus seguidores de bens materiais. Max Weber (sociólogo alemão, séc.XIX-XX), em sua obra A Ética protestante e o espirito do capitalismo, desvenda de forma clara como a concepção protestante de trabalho unida ao ascetismo e a parcimonia dos fieis burgueses levou necessariamente ao desenvolvimento do sistema capitalista na Europa e na América, esta ultima como grande reduto dos puritanos ingleses que tem na economia e no empreededorismo uma marca, exemplo disso foi o inventor americano Benjamin Franklin que criou a frase "tempo é dinheiro".
As igrejas que hoje seguem esta linha de pensamento funcionam como agências que levam os fieis ao empreedimento e a busca de riqueza, como forma de demonstrar que são agraciados por Deus, muitas vezes como um desafio, onde Deus é representado como 'o dono de todo ouro e prata' e que pela sua propria palavra sagrada seria o responsável em atender as demandas financeiras de seus fieis. A fé e o sacrificio pecuniario tornam-se a moeda corrente que obriga Deus a distribuir bens como recompensa. As grandes campanhas realizadas por estas igrejas tem como foco principal a garantia de resultado, de sucesso, de prosperidade, onde os bens materias tem a prioridade. Muitas vezes argumenta-se que o fiel como filho de Deus é indigno de viver na miséria, mas ao invés de apresentar as reais causas da miséria, isto é, a acumulação de riqueza e a má distribuição de renda, coloca como causa desta miséria algo sobrenatural, como possessão demoníaca, maldição familiar e até mesmo, a falta de fé (?). Esta prática é perniciosa por transformar a riqueza no sumo bem do cristão, sendo contrária mesmo ao Evangelho que diz "não levem bolsa nem alforge" (Lc 9,3), ou "o amor do dinheiro é a causa dos males" (1 Tim 6,10), ou ainda "não se pode servir a dois senhores, a Deus ou ao dinheiro (Mamom)", ou finalmente o conselho de Jesus ao jovem rico "se queres ser perfeito, vai vende teus bens e dá aos pobres, depois segue-me" (Lc 18,18-23). Tal teologia da prosperidade não admite que o cristão possa sofrer ou ser pobre, ser pobre é interpretado como uma maldição, ou seja, o contrário do que diz o Cristo que "o reino de Deus pertence aos pobres", o proprio Cristo foi ironicamente vendido por trinta moedas de prata (Mt 26,15).
É óbvio que esta linha de pensamento se coaduna perfeitamente não só para a sociedade tardo-capitalista em que vivemos, mas também se enquadra ao tipo de fiel que esta sociedade criou, o fiel egocêntrico, hedonista, individualista, imediatista, que vê a igreja como clube social ou shopping da fé, onde se paga para assistir um show ou espetáculo de curas e milagres. Este fiel não tem ilusões em relação a transformar a sociedade, na verdade sua ideologia é a de que deve-se 'converter' outros ao mercado da fé, pois só assim os males da miséria e da pobreza acabarão. Para ele, todos tem o direito de ser felizes e ricos, mas apenas os verdadeiros fieis é que se enquadram nesta categoria.
O dízimo, ao invés de ser uma forma de suprir as necessidades da comunidade, isto é, uma forma de redistribuição social da riqueza, torna-se um instrumento de lucro torpe (1 Tim 6,5). No mercado da fé há espaço para diversas igrejas, principalmente para aquelas que sabem usar o marketing e a mídia, transformando pessoas infelizes e depressivas em verdadeiros consumidores para a glória do capital!

16 de janeiro de 2013

Jonas, um profeta relutante


Profeta (em hebraico, nabi) é aquele que anuncia e proclama a Palavra e a Vontade de Deus; em Israel Moisés é considerado o grande profeta e modelo de todos, mas ele mesmo aponta para um profeta maior, Jesus Cristo, o novo Moisés. Na Bíblia (Antigo Testamento) são citados grandes profetas além de Moisés, tais como Elias, Eliseu, Natan, além dos profetas chamados maiores, e os doze profetas menores. A função dos profetas é denunciar a injustiça e apontar os caminhos do direito e da justiça como vontade de Deus.
Jonas, filho de Amati (Jn 1, 1), é um dos doze profetas menores, a obra que tem seu nome por titulo é importante e singular entre os demais profetas, e até Jesus a cita (Mt 12,38-42; Mc 8,11-12; Lc 11, 29-32) ao se referir ao sinal de Jonas, que ficou 03 dias na barriga de um peixe, usando-a como metáfora da sua ressurreição. O livro de Jonas foi escrito no final do período persa (por volta de 538-333 a.C.), não é um livro histórico, mas uma novela com conteúdo sapiencial, pois ele não pretende falar sobre algo que aconteceu, mas dar um ensinamento sobre a universalidade da salvação de Javé, em oposição à visão exclusivista e nacionalista judaica do período pós-exílio, a qual não aceitava que os povos estrangeiros pudessem ser salvos e perdoados por Javé, pois considerava que apenas o povo de Israel era o povo eleito, temos como paradigma disso os escritos de Esdras (398 a.C) e Neemias (450-350 a.C).
Jonas é enviado por Javé para pregar o arrependimento e a conversão na grande cidade de Nínive. Nínive é a capital da Assíria, grande império que predominou no século VIII a.C. e que representava para os judeus o paganismo, a violência e a injustiça. Jonas deve ir à grande cidade e proclamar o arrependimento aos ninivitas, que prontamente se convertem, o próprio rei proclama um decreto de conversão. Jonas, porém, revolta-se porque Javé desiste de destruir a cidade, numa atitude individualista e autoritária. Este é o grande desafio da Igreja hoje, ir às grandes cidades, aos centros urbanos, as metrópoles, a mensagem do Evangelho deve ser proclamada nos grandes espaços, nas cidades, metrópoles, praças, meios de comunicação. Quantas dificuldades nos aguardam, mas ao mesmo tempo, quantas esperanças enchem o nosso coração de entusiasmo! Vivemos em cidades grandes, cheias de problemas, mal administradas, sujas, poluídas, doentes, onde impera a violência, as drogas, o descaso pela vida, onde há muitas tentações, muitos falsos caminhos que iludem as pessoas.
É para estas grandes cidades, das quais queremos muitas vezes fugir, como o profeta Jonas, que Deus nos envia para convidar a conversão e proclamar o perdão dos pecados e a salvação.

30 de outubro de 2012

São Jorge da Capadócia



Uma falsa polêmica foi criada recentemente por conta da novela global “Salve Jorge”, o personagem cujo nome dá o titulo a novela, Jorge da Capadócia (sec.IV) tem sido confundido por grupos pseudo-evangélicos com o orixá Ogum do Candomblé. Pretendemos esclarecer o mal entendido, sem descaracterizar a imagem do soldado cristão da Capadócia, nem estigmatizar o Orixá africano que foi sincretizado no período da escravidão no Brasil.
Jorge da Capadócia (Turquia, sec.IV) foi soldado romano do exercito de Diocleciano, assim como São Sebastião de Narbona, ambos foram descobertos como cristãos e perseguidos e torturados pelo imperador romano que não tolerava o Cristianismo. Em 303, Diocleciano havia publicado um decreto que obrigava a todo soldado oferecer sacrifício aos deuses romanos, Jorge foi até o imperador defender sua causa enquanto cristão, o imperador tentou convencê-lo de todas as formas, oferecendo presentes e, depois o torturando, até mandar degolá-lo em 23 de abril de 303. Há varias cidades no mundo que o proclamam padroeiro e tem igrejas a ele dedicadas na Inglaterra, Portugal, Lituânia e até no Rio de Janeiro. A lenda que liga São Jorge a defesa de uma donzela contra um dragão é derivada de baladas medievais de origem inglesa, sem nenhum fundo de verdade, havia duas versões que supunha a lenda de um dragão que aterrorizava certa região e demandava o sacrifício de uma virgem para satisfazer suas vontades. Da mesma forma não tem fundamento a ideia de sua imagem refletida na lua, que não passa de uma crendice brasileira.
A Religião Africana, por sua vez, é bastante diferente do Cristianismo. Há varias nações africanas com costumes distintos, além de mitos e crenças diferentes entre si. Os povos africanos não têm livros sagrados, nem sacerdotes especializados ou templos. Sua religiosidade está centrada nos mitos, ritos e sacrifícios de animais. Nesse sentido, não há dogmatismo ou ortodoxia. O Candomblé brasileiro é uma crença trazida pelos Iorubás, os quais, além de um ser supremo, Olorum, acreditavam em seres intermediários, os Orixás, entre os quais fizemos referencia a Ogum. Ogum é o orixá ferreiro, que forjava suas armas para caça, agricultura e a guerra, ele é considerado um dos primeiros orixás a descer dos céus a terra. É filho de Oduduwa e Yembo, irmão de Xangô e Oxossi, dono dos caminhos e encruzilhadas como seu irmão Exu. Os negros escravizados no Brasil não eram necessariamente devotos de São Jorge, pois camuflavam sua verdadeira crença usando a figura do santo católico. Como podemos ver, não há nenhuma relação entre a figura de São Jorge com o orixá Ogum, o sincretismo é puramente acidental, uma vez que foi uma forma dos africanos escravizados no Brasil salvaguardar suas crenças e sua religião, identificando o orixá dos metais com o santo.
Os grupos pseudo-evangélicos, que citamos anteriormente, na verdade são grupos fundamentalistas carentes de qualquer formação religiosa, pois usam textos da Bíblia indiscriminadamente e fora de contexto e costumam atacar qualquer forma de religião que não compartilhe de suas falsas conclusões. Geralmente são dirigidas por ‘gurus carismáticos’ que aparentam conhecer as ‘artimanhas diabólicas’ e em tudo aventam teorias conspiratórias para justificar sua paranoia e alimentar seus bolsos. 

25 de setembro de 2012

O ocaso do futebol


A Copa de 2014 será um evento que consagrará definitivamente na história do Brasil a função ideológica e política do futebol. O futebol desde suas origens tem se apresentado como esporte marginal, já na Idade Média, na Inglaterra era muito mal visto. Em nosso país não foi diferente, no século XIX o futuro ‘esporte das massas’ começou como uma brincadeira sem nobreza exercida por pessoas das classes economicamente inferiores. Na década de 70, o esporte subalterno mexeu até mesmo com os rigores da ditadura, e com a copa do México em 1970 consagra-se como propaganda de um país que vivia suposto ‘milagre’ econômico, apesar da repressão e dos homicídios.
Pouco mais de 30 anos depois vemos o futebol bater todos os recordes, tornou-se massificado, assimilado pela lógica do capital é uma força ideológica que rende fortunas. A FIFA tem mais países afiliados que a própria ONU, os jogos entre países historicamente rivais encerram em si uma simbólica guerreira que desvia para os gramados todos os grandes problemas da nação. No Brasil a coisa não é diferente, nosso país se orgulha de nunca ter ficado de fora de uma copa do mundo, de ser hexa campeão, de ter o futebol arte, de exportar craques para todo o planeta, muito embora não tenhamos resolvido as questões mais básicas de um país em desenvolvimento, o qual espera de uma copa do mundo a solução de nossos problemas sociais. Ironicamente não somos mais os ‘donos da bola’, ela agora corre em outro rumo, são nos gramados da Europa onde nossos meninos prodígios desfilam como modelos e manequins.
Quando estão aliados a politicagem, a corrupção e o futebol tudo se torna ainda mais desastroso. O futebol ‘arte’ perdeu seu pudor e virou meio de enriquecimento de muitos cartolas que controlam os horários dos jogos, as transmissões, entre outras coisas. Os politiqueiros de plantão descobriram que o filão do futebol é uma forma muito cômoda de assegurar um rendimento extra, do tipo caixa dois, já não bastasse as inúmeras modalidade de falcatruas que conhecemos.
A Copa de 2014 será mais do que a Copa do Brasil, será a Copa do jeitinho brasileiro, com direito a dribles na fiscalização, gols de placa de impunidade, principalmente em um país onde se investe mais em um único esporte, sem justificativa clara, deixando de lado uma imensa maioria de outras modalidades tão importantes, e mais ainda onde se abandona ao descaso a própria educação. Parece que estamos vivendo o fim do futebol de verdade. Façamos também uma Copa para a Educação antes que seja tarde demais! 

Caminhos da Filosofia no Ceará

       

       A Filosofia tem mais de dois mil anos e sua história nos conduz pelos caminhos da razão que se revela em dimensões diversas e ao mesmo tempo se corrige diante das limitações históricas. Desde os gregos, a Filosofia sempre foi vista com reticência por parte daqueles que detêm o poder e exercem-no em favor próprio. Nesse sentido ela tem servido como antítese do autoritarismo e do dogmatismo.
     No Ceará podemos destacar, entre os mais expressivos pensadores, Vicente Candido Figueira de Sabóia (Sobral, 1835-1909). Formado em Medicina no Rio de Janeiro, autor da obra “A vida psíquica do homem”, além do jovem Raimundo Antonio da Rocha Lima (Maranguape, 1855-1878) considerado um jovem prodígio do pensamento cearense, infelizmente tolhido muito cedo aos 23 anos, sua única obra publicada foi “Crítica e Literatura”. Também merece destaque, Clovis Bevilácqua (Viçosa, 1859-1944), formado pela Faculdade de Direito do Recife, autor das obras “A Filosofia positivista no Brasil”, “Conceito antigo e moderno de Metafísica”, “História da faculdade de Direito do Recife”. Clóvis foi um destacado jusfilósofo e responsável pelo Código Civil em 1911.
     A grande referência da filosofia cearense e brasileira foi realmente Raimundo de Farias Brito (São Benedito, 1862-1917), nascido em São Benedito, fez seus primeiros estudos em Sobral, mas com a seca teve de mudar-se com a família para Fortaleza, onde completou o curso secundário, além de dar aulas particulares; foi depois ao Recife onde fez o curso jurídico na famosa Escola do Recife, onde ensinava Tobias Barreto. Fez parte de algumas agremiações literárias importantes do final do século XIX no Ceará, como o 'Clube Francês, além publicar diversos artigos e poemas em jornais cearenses como 'A Quinzena'. Após isso regressou ao Ceará onde atuou como professor em Aquiraz e Viçosa. Publicou o livro A Finalidade do Mundo (1895) em três volumes, o primeiro é “a filosofia como atividade permanente do espírito”, o segundo “os dois grandes métodos da filosofia moderna” e o terceiro “teoria da finalidade”, depois foi ao Rio e ao Pará, atuando como advogado, promotor e professor da Faculdade de Direito de Belém. Em 1909 vai definitivamente para o Rio de Janeiro. Ali faz concurso para professor de Lógica, tirando o primeiro lugar, mas foi preterido por Euclides da Cunha, autor de 'Os Sertões', tomando posse após a morte deste, na mesma cadeira no Colégio Pedro II. Farias Brito publicou ainda 'A verdade como regras das ações' (1905), 'A Base Física do Espírito' (1912) e 'O Mundo Interior' (1914), além destas restam ainda um volume com seus 'Inéditos e Dispersos'. Faleceu em 1917.
    Já século XX destacamos, Alcântara Nogueira (Iguatu, 1918-1989), reconhecido especialista em Spinosa e insigne professor das universidades UFC, FAFICE e UECE. Entre suas obras citamos “O método histórico-crítico de Spinoza”, “Conceito e ideologia da Escola do Recife”, “Poder e Ideologia”. O Ceará também é conhecido pelos grandes especialistas na filosofia de Hegel, tais como o Professor Djacir Lima Menezes (Maranguape, 1907-1996), formado pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro. Principais obras “Teses quase hegelianas”, “Evolucionismo e Positivismo na critica de Farias Brito”, “Filosofia do Direito”, “Motivos alemães”, “Hegel e o filosofia soviética”, também não podemos esquecer da figura eminentíssima do Padre Paulo Gaspar de Meneses S.J.(Maranguape, 1924-2012), tradutor das principais obras do filósofo alemão (Fenomenologia, Enciclopédia, Filosofia do Direito), além do Professor Manfredo Araújo Oliveira (Limoeiro do Norte, 1941) um dos maiores especialistas na Filosofia  alemã moderna (em especial Kant e Hegel) e contemporânea.
       Nos primórdios de nossa história, exerceram um papel importante no ensino de Filosofia no Ceará, a Igreja Católica com o Seminário da Prainha, além de outros Seminários cearenses importantes, bem como a Faculdade de Filosofia do Ceará (FAFICE), e atualmente, seus herdeiros, a faculdade de Filosofia da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e o curso de Filosofia da Universidade Federal do Ceará (UFC), ambas oferecem curso de mestrado em Filosofia.